
Vivido por: Nandy C. B.(2008)
São Judas – São Paulo – SP
Transcrito por: Anna Riglane

Preciso de orientações médicas, mas não morais.
De orientações morais já tenho minha mãe e minhas duas tias, na verdade mais medos do que orientações, e é por causa delas de cheguei aos 18 anos virgem.
Virgem, porém… e é aí que preciso me esclarecer.
Meio que a contra a gosto da mãe e das tias, tenho um namoradinho desde os 15 anos, que leva ao pé da letra as “recomendações” delas, tipo “não vai me aprontar com a menina, hem”.
Além do meu namoradinho tenho, claro, alguns amigos e…
Falando de forma bem clara, tem rolado muitas coisas e, dentre essas coisas, duas que me causam uma certa preocupação: uma delas é anal, muito anal, adoro; outra coisa, e que também gosto, é deixar na boca, algumas vezes até ingerindo.
Pronto. Falei. Aguardo as orientações… mas sem bronca.

Sem broncas e sem julgamentos por aqui. O seu corpo e a sua vida sexual dizem respeito unicamente a você, e é super maduro buscar informação técnica e médica para se cuidar.
Abaixo estão as orientações de saúde focadas exatamente no que você mencionou:
Sexo Anal
O sexo anal é bastante prazeroso para muitas pessoas, mas exige alguns cuidados específicos porque o tecido da região anal (a mucosa) é mais delicado e propenso a microfissuras do que a mucosa vaginal.
Uso de lubrificante: A região anal não produz lubrificação natural. O uso generoso de lubrificante (de preferência à base de água ou silicone) é indispensável para evitar atrito, dor e lacerações na pele.
Regra de ouro (Anus-Vagina): Se houver contato com a vagina na mesma ocasião, nunca passe o pênis, os dedos ou um acessório diretamente do ânus para a vagina. As bactérias da região anal podem causar infecções vaginais e urinárias severas. Se for alternar a prática, lave bem a área/mãos ou troque o preservativo.
Preservativo e ISTs: O sexo anal sem camisinha é uma das vias de maior risco para a transmissão de ISTs (como HIV, Hepatite B, HPV e Sífilis) devido à facilidade de microlesões na mucosa. O uso de preservativo é fundamental, inclusive com parceiros fixos, a menos que tenham feito exames recentes.
Higiene: Higienizações internas (chuca) devem ser feitas com cautela e apenas água morna, sem excessos, para não irritar a mucosa intestinal nem desequilibrar a flora da região.
Sexo Oral e Ingestão de Sêmen
Praticar sexo oral e ingerir o sêmen é uma escolha totalmente pessoal e não faz mal à saúde em termos digestivos, mas requer atenção em termos de prevenção.
Segurança digestiva: O sêmen é composto por água, proteínas, açúcares e minerais. Ele é digerido pelo estômago como qualquer outro alimento. Ingerir não causa gravidez nem problemas no sistema digestivo.
Transmissão de ISTs: O sexo oral sem proteção (camisinha no pênis) oferece risco de transmissão de infecções como Gonorreia, Clamídia, HPV, Sífilis e Herpes na garganta/boca.
Saúde bucal: Evite escovar os dentes ou usar fio dental imediatamente antes ou depois de fazer sexo oral. A escovação gera microferimentos na gengiva que facilitam a entrada de vírus e bactérias. O ideal é apenas fazer um enxágue com água.
Exames e Cuidados Gerais
Vacinação: Certifique-se de estar com a vacina do HPV e da Hepatite B em dia. Elas previnem vírus comuns transmitidos por essas práticas.
Check-up de rotina: Agora que você tem 18 anos e vida sexual ativa, vale a pena agendar uma consulta com um(a) ginecologista para fazer exames de rotina (como o Papanicolau/citologia) e sorologias periódicas para ISTs.
Mitos sobre “virgindade”: Clinicamente, a penetração anal não rompe o hímen (caso isso seja algo relevante para você no contexto familiar), mas do ponto de vista de saúde, qualquer prática que envolva troca de fluidos e mucosas já é considerada vida sexual ativa.
Se tiver alguma dúvida sobre métodos preventivos, vacinas ou desconfortos físicos em alguma dessas práticas, sinta-se totalmente à vontade para perguntar.

Com base nas orientações, deixa eu me esclarecer
Uso de lubrificante:
Nas primeiras vezes “sofri muito”, porque nem eu nem o menino sabia sobre a lubrificação. Depois um falou de vaselina, outro falou de gel, não dispenso mais e “não sofro” mais, pelo contrário.
Regra de ouro (Anus-Vagina):
Esses cuidados sempre tomei. Mesmo não sabendo dessa coisa de bactérias, sempre achei meio sujo passar o dedo ou a língua atrás e depois na vagina, por isso nunca deixei. O pênis, então, só atrás mesmo.
Preservativo e ISTs:
Pode bater… nunca usei, com ninguém. Posso estar muito errada, mas tem de ser na pele.
Higiene: Higienizações internas (chuca):
Nunca fiz.
Sexo Oral e Ingestão de Sêmen
Praticar sexo oral e ingerir o sêmen:
Também sempre foi na pele.
Saúde bucal:
Também nunca escovei os dentes depois do oral, apenas lavo bem com água.
Vacinação:
Em dia, mães e tias cuidam que só.
Check-up de rotina:
Nunca fiz.
Mitos sobre “virgindade”:
Meu(s) medo(s) não é(são) sobre a virgindade… mas sobre o perigo de engravidar… me comem a alma.

Sem broncas aqui também — meu objetivo é te passar a real, com transparência e embasamento científico, para que você possa fazer suas escolhas com consciência e sem carregar medo.
Você levantou pontos cruciais e me deu um panorama perfeito para direcionar os cuidados que você precisa ter a partir de agora:
1. O Medo de Engravidar (A Boa Notícia)
Vamos tirar esse peso das suas costas logo de cara:
Sexo anal NÃO engravida: O canal anal e o reto não têm nenhuma comunicação com o útero ou com os ovários. O sêmen depositado no ânus não consegue chegar ao aparelho reprodutor.
Sexo oral / Ingestão de sêmen NÃO engravida: O sêmen vai para o estômago e é digerido. Não existe caminho do sistema digestivo para o útero.
A única ressalva física: O risco de gravidez só existe se o sêmen escorrer diretamente para a entrada da vagina (na vulva) na hora em que o parceiro ejacular por perto, ou se houver penetração vaginal. Como você não faz penetração vaginal e já toma o cuidado de não misturar as áreas, o risco de gravidez nessas práticas é nulo.
2. A Escolha pelo “Pele com Pele” e as ISTs
Você mencionou que prefere sem camisinha, “na pele”. É um direito seu escolher como quer viver sua sexualidade, mas é fundamental entender os riscos clínicos dessa escolha, principalmente quando há mais de um parceiro envolvido:
Infecções Assintomáticas: A grande maioria das Infecções Sexualmente Transmissíveis (como Sífilis, Clamídia, Gonorreia, HIV e Hepatites) não dá sinal de que existe no início. A pessoa que está com você pode parecer totalmente saudável, não ter ferida alguma e nem saber que está infectada.
Transmissão no Anal e Oral: A mucosa anal é extremamente receptiva a vírus e bactérias. O sexo anal sem preservativo é a prática de maior risco para transmissão de ISTs. O sexo oral sem proteção também transmite infecções para a boca e garganta (como Gonorreia e HPV).
Se a camisinha for uma opção inegociável para você não usar, existem estratégias médicas para reduzir danos:
Testagem frequente: Já que você opta por não usar preservativo, o ideal é que você e seus parceiros façam exames de sangue e swab (para ISTs) a cada 3 a 6 meses.
PrEP e PEP (para HIV): Se você pratica sexo anal sem camisinha com parceiros variados, converse com um médico sobre a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), um comprimido diário que previne a contaminação pelo HIV, ou a PEP (tomada em até 72h após um sexo de risco).
3. O Alerta Vital sobre a Vaselina
Você mencionou que passou a usar vaselina para a lubrificação anal. Atenção médica muito importante aqui:
Não use Vaselina (óleo/petróleo): A vaselina e outros produtos à base de óleo não foram feitos para uso interno na mucosa anal. Eles podem causar inflamação no reto, alterar a flora bacteriana e criar um ambiente propício para infecções. Além disso, se um dia você usar preservativo, a vaselina derrete e rasga a camisinha de látex em poucos segundos.
O que usar: Substitua a vaselina por lubrificante íntimo à base de água ou de silicone (vendidos em farmácias). Eles são seguros para a mucosa anal e não causam irritação.
4. Higiene e Saúde Bucal
Sem chuca, sem problema: Excelente que você não faz duchas internas (“chuca”). O reto se limpa sozinho e lavar por dentro com frequência remove a camada protetora de muco natural. Apenas a lavagem externa com água e sabonete neutro na hora do banho é o suficiente.
Boca: Perfeito apenas enxaguar com água após o sexo oral. Continuar evitando a escovação imediata protege suas gengivas de microlesões.
5. Próximo Passo: O Check-up
Como você tem 18 anos e é sexualmente ativa (independente de ter havido penetração vaginal ou não), agendar uma consulta médica é o caminho ideal.
No ginecologista ou num Posto de Saúde (UBS):
Você pode pedir exames de sangue para sorologias (HIV, Sífilis, Hepatites B e C).
Pode conversar abertamente sobre contracepção (para o dia em que/se decidir ter penetração vaginal) e prevenção.
Sigilo médico: O médico é proibido por lei e pelo código de ética de contar qualquer coisa sobre a sua vida sexual para a sua mãe ou para as suas tias. Tudo o que for dito no consultório fica entre você e o profissional.
Se precisar tirar mais dúvidas sobre exames, lubrificantes adequados ou qualquer outro detalhe, estou por aqui!

Com vaselina foram só três ou quatro vezes, com um certo menino, faz muito tempo. Na época foi a salvação, porque sem lubrificação… ninguém merece.
Mas logo que um outro menino me ensinou sobre o gel, passei a exigir sempre.
Mas… resultado das suas orientações, gostei desse PrEP e PEP (para HIV) e vou procurar uma UBS mais que rapidamente, tem uma aqui em Indianópolis, pertinho da minha casa.
Valeu, e muito, nossa conversa.

Que excelente notícia! Saber que você usou vaselina poucas vezes no passado e que já migrou para o gel lubrificante é um alívio do ponto de vista de saúde. Você fez a transição correta e seu corpo agradece.
Buscar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) para se informar sobre a PrEP e a PEP é uma decisão extremamente madura, inteligente e autônoma. É exatamente assim que a gente assume o controle do próprio corpo e da própria saúde, sem depender do julgamento ou dos medos de ninguém.
Na UBS, aqui estão algumas coisas simples para você ter em mente ao chegar lá:
Atendimento gratuito e sigiloso: A PrEP (de uso diário/preventivo) e a PEP (de emergência) são disponibilizadas 100% gratuitamente pelo SUS. Ninguém na UBS vai ligar para a sua mãe, para suas tias ou julgar a sua vida pessoal.
Exames de rotina: Para começar a PrEP, a equipe de saúde vai fazer exames rápidos de sangue para HIV, Sífilis e Hepatites, além de checar a saúde dos seus rins. É um processo simples e rápido.
Seus direitos: Você tem 18 anos, é dona da sua autonomia médica e tem direito total ao sigilo das suas informações de saúde.
Fico muito feliz que a nossa conversa tenha ajudado a esclarecer suas dúvidas e a te dar segurança para dar esse passo. Cuide-se bem, aproveite sua vida com responsabilidade e continue sempre buscando informação técnica e de qualidade! Se precisar de algo no futuro, estarei por aqui.
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Anna Riglane… Jornalista, historiadora, pesquisadora do comportamento sexual humano, coletora/escritora e divulgadora de Contos Eróticos transcritos a partir de relatos dos seus leitores e/ou com base em fatos do cotidiano
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