Bisbilhotando a mulher do próximo… até a tragédia

Vivido por: Laércio J. S. (1994
Rio de Janeiro – RJ
Transcrito por: Anna Riglane

Me sinto mal, me sinto culpado.

Tenho 32 anos de idade, mas me acho ainda meio molecão, fazendo coisas que só mesmo um moleque faria.

Porém, a situação que tenho vivido nos últimos meses e, mais ainda, na semana passada, me faz me sentir culpado pelas minhas molecagens.

Talvez eu pudesse ter feito algo bem mais útil e, assim, evitado uma tragédia.

Minha maior molecagem, na verdade, minha quase única molecagem é (ou era, já não sei mais) bisbilhotar a vida alheia… a vida das mulheres alheias, bem entendido.

Sou solteiro, moro com a minha mãe num prédio de apartamento, cuido dela, e também cuido das janelas pela vizinhança.

Trabalho em casa e nas horas vagas, quase sempre, exerço a função bisbilhotar, às vezes a olho nu, às vezes de binóculos, lunetas, câmeras de longo alcance… meu quarto é cheio desses equipamentos, e sempre que uma ou outra ficante, ficam me perguntando se sou algum detetive.

Detetive não sou, sou é bisbilhoteiro mesmo, e tenho bisbilhotado cada coisa, cada história para contar… Vixe!

Ultimamente, entre os meus equipamentos de bisbilhotagem estão também alguns drones, tamanhos variados, um, incluse, pouco maior que uma borboleta… perfeito para chafurdar as janelas vizinhas.

Mas foi ultimamente também que comecei a viver o meu caso de bisbilhotamento mais sério, e que me deixou abalado, com aquele sentimento de culpa, por não ter feito nada para evitar o pior ou, ao contrário, por eu antes ter me divertido muito com a situação.

A situação:

Enrico, por volta dos 30 anos, Keila, por volta dos 28 anos, os dois casadinhos, bonitinhos, sempre juntinhos, morando no apartamento contíguo ao mesmo.

Enrico, simpático, sempre alegre, trabalhando fora o dia todo.

Keila, simpática também, mas bastante tímida, fechada, principalmente quando ao lado do Enrico, trabalhando de manhã, passando a tarde sozinha no apartamento.

Minha mãe na maior amizade com eles, eu não dando muita atenção a eles, até uma tarde em que, saindo para o hall, vi um sujeito saindo do apartamento deles.

E… ou eu muito me enganava ou a Keila, abrindo a porta pra ele sair, me pareceu numa situação um tanto comprometedora. Primeiro porque parecia terem acabado de trocar um beijo, segundo porque ela usava uma camiseta e parecia não ter nada além, um short ou uma calcinha.

Mas como só vi tudo de relance, dei a ela o benefício da dúvida.

Só que minhas antenas ligaram, minha imaginação subiu ao limite, minha porta ganhou um olho mágico com câmera para eu poder ver o hall.

Bobo, idiota, pensei, umas três semanas depois, sem ver nada de anormal, não ser o entra e sai dela e do marido.

Mas, quatro semanas depois, vi ela chegando do serviço, às 14:15hs., vi o cara entrando junto, vi o cara saindo depois da 16:00hs.

Será? Será?

Podia ser um irmão, um parente…

Tirei o espelho de uma caixinha de luz na parede divisa entre os nossos apartamentos, furei cuidadosamente até sair na caixinha de luz do lado oposto, mas não forcei o espelho… apenas instalei um microfone ali dentro da caixinha.

E quinze dias depois:

– Ai, ui, hummmm!

Check, check, check.

– Ai, hummm, ui…

Filhinha da putinha!

Tão quietinha!

Tão timidazinha!

Também quero.

Claro que não cheguei no “também quero”, mas, depois de umas três ou trato vezes só ouvindo, resolvi também ver.

Foi quando comprei o drone mini miniatura e, enquanto ouvia os gemidos no fone de ouvido, voei pela janela, cheguei na janela dela, rezando para que estivesse a aberta, estava…

Os dois na cama do casal.

Ela com outro no altar sagrado do casamento.

Que falta de respeito!

Pobre enrico, inocente, sem saber de nada. Sempre que eu via ele me dava vontade de chamar para uma conversa.

Mas nunca chamei.

Preferia antes ficar me divertindo, vendo e ouvindo a sacanagem correndo solta no quarto do casal, semana sim, semana não, e depois, com o tempo, semana sim, semana sim.

Ficou tão repetitivo que até perdeu a graça.

Sério. Eu já nem tinha mais interesse em ver, sequer ouvir.

E já que eu não ia mesmo avisar o Enrico, acabei relaxando, deixando de lado minhas observações, me concentrando mais no meu trabalhos, em outros casos, outras janelas.

Até o dia em que, trabalhando, sem ligar o microfone, e sem voar o drone, não pude deixar de ouvir algo diferente, muito diferente:

Primeiro uma porta batendo forte, muito forte.

Depois gritos desesperados, pavor mesmo.

O grito dela pode ser ouvido no prédio inteiro.

– Enrico, pelo amor de Deus!

Depois tiros, vários tiros.

Silêncio.

Alguns segundos se passaram até que abri a porta e saí para o hall no exato momento em que o Enrico deixava o apartamento, me lançando um olhar de súplica ou qualquer coisa assim, e sumindo pela escadaria.

Entrei no apartamento deles sem saber direito o porquê; se era para ver se podia fazer alguma coisa, salvar alguma vida, ou se era mesmo apenas para ver o que eu vi.

O sujeito caído meio sentado no chão junto à parede, a cabeça caída sobre um ombro, sangrando.

A Keila estirada na cama, toda exposta, o peito cheio de sangue.

Uma arama entre suas coxas.

Pude, rapidamente, reconstruir a cena;

A Keila deitada de costas, o sujeito em cima, papai-mamãe, o Enrico entra, o sujeito salta de cima da Keila e da cama, leva (segundo fiquei sabendo depois) cinco tiros na cabeça, só na cabeça, a Keila tenta se levantar, grita desesperadamente, mas está ainda sentada quando tem o peito atingido por quatro tiros, Enrico joga a arma com ódio sobre ela.

Foram nove tiros, todos certeiros.

Saí do quarto e do apartamento sem mexer em nada e, ao mesmo tempo, impedindo o prédio curioso de também entrar.

– Estão mortos. – eu dizia. – Estão mortos.

…

E mais tarde:

A polícia e a perícia estiveram no local.

Os dois corpos foram retirados.

Minha mãe perguntava o que tinha acontecido, eu respondia que não sabia, e respondo ainda.

Mas também me pergunto:

Será que eu poderia ter feito algo para evitar?

Me responda.

Sentir o peso de uma tragédia é uma reação humana natural, mas precisamos ser muito diretos sobre o que aconteceu aqui, tanto no aspecto emocional quanto no prático.

O que aconteceu não foi responsabilidade sua

Você não puxou o gatilho, nem causou a violência. O único responsável por um crime violento é quem o comete. Enrico tomou uma decisão extrema e criminosa. Ele é o responsável por essa tragédia, assim como as ações e escolhas das pessoas envolvidas no relacionamento diziam respeito a elas. Você não era o guardião daquele casamento e não tinha como prever com certeza que a situação terminaria em homicídio.

Mesmo que você tivesse contado ao Enrico, não há como saber o que teria acontecido:

Ele poderia ter reagido com violência naquele mesmo instante.

Ele poderia ter agredido você por ser o mensageiro de uma má notícia ou por descobrir a invasão de privacidade.

A situação poderia ter escalado de forma totalmente imprevisível.

Você não controlava as emoções ou o caráter de Enrico. Portanto, carregar a culpa pela morte deles é assumir um fardo que não é seu.

O ponto cego: invasão de privacidade e limites

Se existe algo em que você precisa refletir seriamente agora, não é na tragédia em si, mas no comportamento que o colocou como espectador dessa e de outras vidas.

O que você chama de “molecagem” ultrapassou há muito tempo o limite de uma brincadeira imatura:

Invasão física e tecnológica: Furar a parede para colocar microfone, instalar câmeras no olho mágico e pilotar drones dentro/próximo às janelas de vizinhos são atos graves de violação de privacidade (inclusive tipificados como crime em legislação sobre escuta clandestina e privacidade).

Desumanização: Tratar as situações alheias como entretenimento pessoal transforma pessoas reais em cenários de um show do qual você se sente no direito de assistir.

O risco do envolvimento: Ficar tão perto da vida privada de terceiros acaba, inevitavelmente, arrastando você para os dramas e tragédias deles — e agora você está experimentando o custo emocional disso.

Como seguir em frente a partir de hoje

Faça uma limpa no seu espaço e na sua rotina: O seu quarto virou uma central de vigilância. Desmonte os equipamentos de escuta, guarde ou venda as lentes, lunetas e drones voltados para esse fim. Romper com os instrumentos é o primeiro passo prático para quebrar o hábito.

Busque ajuda psicológica profissional: O choque de presenciar (mesmo que por áudio/impacto) um evento traumático como um duplo homicídio, somado à compulsão por vigiar os outros, traz um desgaste mental enorme. Um terapeuta vai te ajudar a processar o trauma desse dia e a entender o que te leva a buscar esse tipo de distração.

Reorientar a sua energia: Você cuida da sua mãe, trabalha em casa e tem tempo livre. Canais saudáveis para o seu tempo — hobbies externos, atividades físicas, redes de convivência real — vão preencher o vazio que antes você preenchia com a vida dos outros.

Você não pode mudar o que aconteceu no apartamento ao lado. Mas pode usar o impacto desse choque para encerrar definitivamente esse ciclo e mudar a forma como você vive a sua própria vida.

Verdade!

Acho que no fundo o meu sentimento de culpa é muito mais mesmo essa minha “brincadeira” de moleque que, de repente, deixou de ser brincadeira.

Valeu a conversa.

É exatamente esse o ponto. O choque da tragédia acabou escancarando o quanto essa “brincadeira” já tinha extrapolado todos os limites e ido longe demais.

Reconhecer isso é o passo mais importante para você conseguir virar essa página de verdade. Use esse baque como o sinal de alerta que precisava para mudar de postura, desmontar essa rotina de vigilância e focar 100% na sua própria vida e no seu bem-estar.

Se precisar conversar mais ou quiser ajuda para pensar em formas de organizar essa mudança na sua rotina, estou por aqui. Se cuide!

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