A prometida e o ginecologista

Patient in examination chair receiving care from two masked healthcare professionals

Vivido por: Mariana S.F. (2000)
Campo Belo – São Paulo – SP
Transcrito por: Anna Riglane

Logo senti no corpo e na alma o consultório cheirando a antisséptico e papel linho, o ar estava rarefeito, o nervosismo não da espera, mas da chamada pelo meu nome.

A plaqueta na porta não deixava dúvidas: Dr. Arthur Sampaio.

Arthur, Arthur…

Seria o mesmo Arthur de quem eu lembrava apenas o primeiro nome, e que, pelo meus quatorze anos, me roubava selinhos desajeitados atrás da quadra de esportes?

O mesmo Arthur que atrevia um tanto mais a mão em cantinhos mais isolados, mais escurecidos nas noites próximas ao Aeroporto de Congonhas?

O mesmo Arthur que me fazia suplicar, sem querer suplicar?

– Tira a mão daí!

– Não tiro.

– Tira!

– Me dá ela?

– Me dá.

– Tá bom… mas não aqui nem agora.

– Quando?

– Um dia.

O dia nunca chegou, e daqueles momentos só haviam restado as gostosas lembranças, e também o ciúme irracional e crônico do Lucas, que um dia se tornou meu namorado, que depois se fez meu marido, mas que faz questão de sempre me questionar quando o nome dele surge em alguma conversa antiga ou mesmo quando passamos pelos arredores da escola onde fiz o meu Fundamental e o Ensino Médio.

Três anos de namoro, três de casamento, e seis anos eu tendo que explicar ao Lucas que nunca tive nada com o Arthur a não ser inocentes selinhos, coisa de adolescente; nunca mencionei a mão atrevida, e menos ainda a promessa.

– Um dia eu dou.

Meu nome chamado pela assistente do Doutor Arthur Sampaio, moça jovem, bonita, que me instruiu com a maior frieza sobre tirar toda a roupa atrás do biombo, vestir uma bata, um avental aberto na parte de trás, e depois me deitar na cama para a consulta, com as pernas abertas, apoiadas em dois suportes almofadados.

Não era a minha primeira consulta ginecológica, eu conhecia a rotina, não havia porque me constranger, ainda que isso não fosse coisa simples.

Aquela bata ridícula de TNT parecia anular qualquer vestígio de dignidade, prestes a ser examinada nas minhas intimidades por um homem que trazia o mesmo nome do fantasma favorito do meu marido.

A porta se abriu com um rangido leve.

Apenas virei levemente o rosto na direção… era ele.

Era o próprio Arthur dos beijos pelos muros, da mão atrevida, da promessa que fiz e nunca cumpri.

Ele entrou secando as mãos numa folha de papel-toalha, trazia o jaleco branco impecável sobre a camisa social, os cabelos mais curtos do que na oitava série… mas o mesmo sorriso irônico de canto de boca que costumava me tirar do sério naqueles convites enigmáticos que ele me fazia na sala de aula.

— Olá… — ele começou, erguendo os olhos do prontuário, a frase morrendo na garganta, seus olhos escuros percorrendo o meu rosto, descendo pela bata e voltando para os meus olhos, agora arregalados. — Mariana? Caramba.

— Oi! — foi tudo o que consegui dizer, sentindo o sangue subir em ondas violentas pelo meu pescoço, tingindo meu rosto de escarlate.

Ele fechou a porta com o pé, encostou-se na bancada de inox e cruzou os braços, soltando uma risada curta, incrédula.

— Bem que o nome no sistema me pareceu familiar, mas achei que era coincidência. Mas é você mesma, a Mariana… a mesma Mariana que me abandonou triste chorando, que se casou com o… como é mesmo o nome dele?

– Que trágico! – senti-me compelida a falar.

– Põe trágico nisso. Você não faz ideia do quanto sofri nas noites frias de inverno…

– Para com isso… seu tonto!

– Lembrei o nome dele… Lucas? Lucas, o colega do terceiro anos por quem você me trocou, o mesmo que sempre me fuzilava, mas que tinha vontade mesmo dera de me dar uma surra.

– Nunca foi nada disso. – falei, sentindo que a consulta, na verdade a conversa, estava tomando um rumo que eu não queria.

Instintivamente, puxei ponta do lençol de papel para cobrir ao menos em parte minhas intimidades até então expostas.

Mas ele não estava disposto a se concentrar unicamente no seu trabalho.

— Se ele souber que sou o seu ginecologista, ele surta. Ou sofre um infarto fulminante. ele disse, um brilho divertido e perigoso no olhar.

Em seguida, se aproximou devagar, apoiando as mãos na lateral da mesa de exames, invadindo o meu espaço de um jeito que fez meu estômago dar um salto. E me pergunta:

 — Me diz, senhora Mariana… ele continua ciumento?

– Um pouco… normal.

– Mas… o ciúme dele tem algum fundamento?

– Fundamento… – praticamente murmurei, sem saber o que continuar.

 A pergunta me caiu carregada de uma intenção adulta  arrastada por ele, e que ignorava completamente os mais de dez anos que se passaram desde aquele nosso namorico.

Senti um arrepio quente subir pela espinha.

O consultório de repente pareceu pequeno demais.

– Sim… fundamento… alguma razão para ele sentir ciúmes de você?

— Ora! Somos casados, é normal. – falei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem crispadas no tecido do lençol.

— Eu sei, eu li o prontuário. Estado civil: casada — ele respondeu, com a voz rouca, aproximando o rosto do meu. O cheiro de perfume caro misturado com o ambiente clínico bagunçou ainda mais os meus sentidos. Ele esticou a mão e, com a ponta dos dedos, tocou de leve o meu queixo, forçando-me a encará-lo. — Mas aqui dentro, quem dita as regras sou eu. E o seu marido não precisa saber de nada do que acontece entre estas quatro paredes, precisa?

– Saber… – comecei, me interrompi.

Minha respiração falhou por completo quando vi ele dando um passo atrás e travando a porta.

O peso daquela sugestão e da porta trancada despencou sobre mim como uma avalanche de adrenalina pura.

A ideia de me ver traindo o Lucas já havia flertado comigo, mas apenas nos meus pensamentos, nalgumas fantasias.

Nosso casamento, quente como nos primeiros tempos, nunca havia me permitido navegar por outras lascívias.

Mas ali, diante justamente do meu ex-namoradinho de infância, o grande terror do meu marido… era um pecado que me parecia delicioso demais para recusar.

— Você continua um abusado — sussurrei, sem desviar o olhar do dele, sentindo o calor do seu corpo perturbar a distância fria da maca.

— E você continua corando exatamente do mesmo jeito — sorriu ele, antes de descer os lábios até a curva do meu pescoço, bem onde o pulso acelerado denunciava o quanto eu já havia perdido o controle da situação.

A porta trancada por dentro, o estetoscópio deslizando para o chão… o Lucas tinha razão, seu ciúmes já não era apenas um ciuminho bobo de marido, era uma tempestade da qual eu não queria, de jeito nenhum, escapar.

– Bem… vamos começar o exame. – disse ele, já em pé entre as minhas coxas dobradas como num frango assado.

O contraste entre o tom profissional que ele forçou na voz e a postura escandalosamente íntima em que se colocou fez escapar um riso nervoso dos meus lábios.

Apoiou as mãos nos joelhos estendidos do suporte, os olhos escuros fixos nos meus com uma intensidade que parecia despir a minha alma muito antes de qualquer procedimento médico.

O jaleco branco pendendo aberto, revelando a camisa social ligeiramente amassada no peito.

— Paciente especial, tratamento personalizado. ele murmurou, com a voz grave descendo um tom enquanto a ponta dos dedos roçava de leve a lateral da minha coxa exposta pela bata.

O toque mandou uma corrente elétrica direto para a base da minha espinha.

O consultório parecia ter diminuído de tamanho.

Pela janela basculante, o som abafado do trânsito da rua lá fora contrastava com o silêncio pesado e carregado de tensão que se formara entre nós.

Minha respiração já estava curta, presa na garganta, enquanto a ironia da situação latejava na minha mente: o Lucas em casa, roendo as costas de ciúmes de um fantasma do passado, sem imaginar que o tal fantasma estava literalmente com a faca e o queijo na mão — ou melhor, entre as minhas pernas.

Se o Lucas visse…

Arthur deu um passo à frente, encaixando o quadril no espaço entre os suportes da maca, fechando qualquer brecha de distância.

Dobrou seu corpo sobre o meu a ponto de capturar meus lábios para um beijo urgente… que com certeza seria quente e carregado de anos de vontade reprimida.

Mas o beijo não foi nos meus lábios, não foi um daqueles selinhos inocentes pelos muros da escola, pelos becos do aeroporto, o beijo foi no meu ponto mais vulnerável.

E depois do beijo…

Meu estômago despencou.

O ar sumiu dos meus pulmões quando percebi a mudança repentina de alvo, transformando a provocação cúmplice em uma rendição absoluta.

Antes que eu pudesse formular qualquer pensamento racional ou protesto — que, para ser sincera, já não existia em lugar nenhum da minha mente —, as mãos firmes de Arthur seguraram a aba da bata, erguendo-a sem cerimônia.

O barulho do papel linho amassando sob o meu peso foi o único som físico no consultório, abafado imediatamente pelo calor da respiração dele contra a minha pele.

Quando seus lábios quentes tocaram meu ponto mais vulnerável, o mundo inteiro pareceu girar.

Soltei um arquejo agudo, as mãos disparando para os cabelos curtos dele, os dedos crispados nos fios enquanto meu quadril se curvava involuntariamente em direção ao seu rosto.

Não sobrou nada da paciente contida ou da mulher casada dedicada ao marido; restou apenas o eco abafado daquele consultório médico, o cheiro de antisséptico misturado ao suor e à nossa urgência.

A barreira do profissionalismo desabou de vez.

Me chupou ardentemente por longos e indescritíveis minutos, até levantar lentamente a cabeça, seus olhos escuros brilhando com um apetite feroz, a boca levemente avermelhada.

Sem dizer uma palavra, desabotoou a calça social com movimentos rápidos, a ansiedade evidente nos dedos.

A distância entre nós evaporou quando ele se encaixou exatamente onde eu mais desejava, unindo nossos corpos com um impulso profundo que me arrancou um gemido rouco, abafado contra aquele avental que nada me cobria.

Talvez a penetração mais aguda que já senti.

Penetração e movimentos.

Cada movimento era calculado para apagar os anos de silêncio, a distância e aquela promessa que um dia eu havia feito, e que agora ele me lembrava.

– Lembra que você me prometeu ela?

– Lembro.

O som dos nossos corpos colidindo na sala silenciosa ecoava como uma confissão escancarada.

Enterrei as unhas em suas costas, sentindo os músculos tensos sob a camisa, entregue a uma onda de prazer cru que fazia cada célula do meu corpo formigar.

— E agora? — Arthur sussurrou contra o meu ouvido, a voz cortada pela respiração ofegante, enquanto acelerava o ritmo de forma implacável, fazendo a maca balançar levemente contra a parede —, duvido o seu marido ter ciúmes à altura disso aqui.

– Agora o quê?

– Você dá ela pra mim?

– Dou.

– Você está dando ela pra mim?

– Estou! Estou…! Come ela, come!

Fechei os olhos, arqueando as costas e perdendo o controle de vez, enquanto o clímax desabava sobre nós como uma tempestade impossível de conter.

Não sei a imagem do Lucas lá longe, não sei se o medo de ver a sala invadida por algum colega do Arthur, só sei que a adrenalina subiu em um nível que me fez perder completamente o controle, da mente, das minhas unhas nas costas, dele, do meu quadril.

Arthur acelerava, eu sentia que ele ia gozar dentro de mim.

O medo não era mais um freio, era o combustível que faltava para nos incendiar de vez.

A mera possibilidade de a porta se abrir a qualquer segundo — de ver o rosto do Lucas ali, ou de qualquer enfermeira entrar com uma prancheta — transformou o delírio em uma roleta-russa de pura perversão.

Minhas unhas cravaram com tanta força nas costas dele que eu quase pude sentir a textura da pele cedendo, mas Arthur não recuou um centímetro sequer. Pelo contrário: um rosnado preso na garganta dele confirmou que a dor e o perigo só faziam alimentar o fogo.

O consultório inteiro parecia girar em torno daquele eixo de fricção e suor.

Meu quadril respondia aos estocadas dele numa urgência selvagem, abandonando qualquer resquício de pudor, de casamento, de regras ou de tempo.

Eu já não sabia onde começava o meu corpo e onde terminava o dele; éramos apenas um nó cego de respirações sufocadas e desespero.

Ele agarrou minhas coxas com as duas mãos, puxando-me ainda mais para perto, colando nossos corpos de um jeito impossível.

Senti o ritmo dele quebrar, a respiração falhar e o corpo inteiro tencionar de uma maneira que denunciava o limite da contenção.

— Mariana… — ele gemeu meu nome num sopro trêmulo contra o meu pescoço, o aviso claro e inevitável vibrando dentro de mim bem no instante em que ele desabou em espasmos profundos, gozando quente, fundo, sem tirar nem por um segundo o vínculo proibido que havíamos criado ali.

O choque daquele descarregamento me atingiu como uma onda colossal, puxando-me junto para o fundo de um abismo onde a única certeza era o gosto de pecado na boca e o eco ensurdecedor dos nossos corações batendo em descompasso, bem debaixo do nariz de tudo o que deixáramos lá fora.

Minha vontade de gritar só foi contida com a própria mão dele, que agarrei e enfiei boca a dentro, numa mordida tão forte quanto minha vagina mordia o membro dele, em espasmos repetidos… repetidos espasmos.

Sem pensar, fechei os dentes nas mãos dele, numa mordida faminta, crua, que canalizava toda a eletricidade acumulada nos meus nervos.

Enquanto meus dentes pressionavam a pele dele, minha vagina contraía-se em ondas furiosas e involuntárias, apertando o membro ainda rígido e pulsando lá dentro, sugando os últimos resquícios de fôlego que nos restavam.

Os espasmos vinham em sequências implacáveis, fazendo meu tronco arquear descontroladamente sobre a maca, as mãos cravadas nos lençóis amassados.

Arthur soltou um gemido abafado contra o meu cabelo, os olhos fechados com força, suportando a dor e o prazer misturados na minha mordida sem tentar se afastar nem por um segundo.

A cada contração nova do meu corpo, ele respondia com um arfar trêmulo, incapaz de escapar da armadilha perfeita que havíamos construído.

O silêncio que se seguiu no consultório foi denso, pontuado apenas pelo som das nossas respirações descompassadas e pelo ar condicionado zumbindo no teto.

Quando finalmente afrouxei os dentes, deixando escapar um suspiro longo e trêmulo, olhei para ele. Arthur afastou a mão devagar, examinou a marca vermelha e funda dos meus dentes na pele, e abriu um sorriso lento, cansado, mas absolutamente triunfante.

Ergueu de volta o corpo e, em pé novamente, começou a me limpar, ainda sem tirar o pênis, foi tirando e limpando, limpando e tirando, não deixando nenhuma marca visível do estrago que ele havia feito em mim.

Esgotou quase um pacote de lenços umedecidos.

O contraste entre a brutalidade do que acabáramos de viver e a delicadeza cirúrgica com que ele me limpava era quase perverso.

Descia o lenço com movimentos firmes, mas cuidadosos, limpando a pele marcada pelo suor e pela entrega.

E, enquanto deslizava o tecido, ele fazia o movimento inverso com o corpo: ia tirando e limpando, limpando e tirando, centímetro por centímetro, fazendo o atrito prolongar a sensação de preenchimento até o último segundo possível.

Cada vez que ele recuava um pouco e voltava a deslizar o lenço, um arrepio subia pela minha espinha.

Era um ritual de apagar evidências, uma coreografia calculada para garantir que nenhuma marca visível revelasse o estrago delicioso que ele havia feito em mim.

Quando o último centímetro finalmente se desvencilhou, o vazio pareceu ecoar frio no consultório, mas a pele estava limpa, sem vestígios externos do pecado.

Jogou os lenços na lixeira, respirou fundo para ajeitar a postura e puxou a calça social, abotoando-a com as mãos ainda levemente trêmulas.

Endireitou o jaleco, ajeitou a gola da camisa e, num piscar de olhos, voltou a vestir a persona impecável do Dr. Arthur Sampaio, o profissional de jaleco branco pronto para assinar um receituário.

E no roteiro…

O consultório ainda guardava o calor da nossa urgência quando o silêncio foi cortado pelo movimento dele inclinando-se e esticando o braço por trás do biombo de metal, para de lá tirou tirar a minha calcinha.

Com um sorriso lento, carregado de uma intimidade que agora pertencia a um segredo só nosso, e sem pressa, esticou minha calcinha e foi me vestindo com uma calma quase insolente, os dedos roçando de leve a pele ainda sensível das minhas coxas.

– Vista-se, senhora Mariana. – falou então, como se fosse uma ordem.

– Mas… e a consulta, o exame…? – perguntei, já em pé, puxando a saia e tentando em vão controlar a respiração trêmula enquanto vestia o resto da roupa.

– Retorno daqui a quinze dias, pode marcar na recepção.

Abriu-se a porta, e voltei para o mundo, ainda tentando assimilar aqueles momentos.


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