Maria Augusta e a caixa de ferramentas
Transcrito por: Anna Riglane

O sol das sete da manhã batia no vidro do carro, quente e convidativo, contrastando com o frio na barriga que Maria Augusta sentia todas as vezes que pisava naquele endereço, ou seja, todos os dias, praticamente.
Aos 33 anos, mãe de dois filhos, mas a pele morena bem escura, ainda viçosa e reluzente, e curvas que nem o uniforme mais largo conseguia esconder, ela mantinha os olhos fixos na entrada do condomínio de luxo.
— Chegamos, preta. Bom trabalho. Te pego no fim da tarde — disse o marido, dando-lhe um beijo estalado na bochecha antes de engatar a marcha para voltar para casa, onde ficava sua oficina mecânica.
Maria Augusta sorriu fraco, sentindo o peso da aliança no anelar direito. Olhou o marido partir com as mãos eternamente sujas de graxa e de óleo, um homem bom, trabalhador… e terrivelmente previsível.
A culpa começou a roer por dentro, como sempre roía, um eco distante da voz do pastor da sua igreja ressoando em sua mente:
“O adultério é o caminho para a perdição, a carne é fraca, mas o espírito deve prevalecer! A mulher adúltera provará do fogo da condenação! Bolinação, fornicação, sodomia…”
Fechou os olhos por um segundo.
Condenada.
“Adultério, fornicação…”
O que condenava mais? Qual a diferença? De qualquer jeito ela se sentia podre, uma pecadora suja.
Mas o pensamento do que a esperava no andar de cima fazia sua calcinha encharcar instantaneamente, rasgando qualquer vestígio de moralidade.
Subiu pelo elevador de serviço, o coração martelando contra as costelas.
Ao abrir a porta do apartamento, encontrou Dona Laura já de bolsa na mão, chaves nos dedos, pronta para ir para o escritório.
— Bom dia, Maria! Já estou de saída. Deixei a lista de compras na bancada. — disse a patroa, num tom apressado, arrumando o colar.
— Bom dia, Dona Laura. Pode deixar, cuido de tudo — respondeu Maria Augusta, mantendo a cabeça baixa, os olhos evitando o corredor.
Cumprimentaram-se, despediram-se, e a porta social se fechou.
A casa ficou em um silêncio denso, carregado de expectativa.
Maria Augusta caminhou em direção ao quartinho nos fundos para trocar de roupa e colocar o avental, mas, no meio do caminho, veio o som… um assobio baixo, arrastado, vindo da sala.
Travou.
“Não atende. Não vai. Entra no quarto, tranca a porta, vai trabalhar”. – dizia uma voz vinda lá do fundo da sua alma.
“Não atende. Não vai. Entra no quarto, tranca a porta, vai trabalhar”. – ela repetia em voz audível, num pedido desesperado de salvação.
Mas seu corpo simplesmente não obedecia à sua razão.
Não sabia ao certo como aquilo tinha começado meses atrás — uma troca de olhares mais demorada, um esbarrão “sem querer” na cozinha, as mãos dele cruzando a cintura dela enquanto ela lavava a louça — e muito menos como iria terminar.
Só sabia de uma coisa: era incapaz de resistir.
…
A memória da primeira ressurgiu, mais uma vez, como um golpe seco na sua nuca: senhor Mauro, o marido de Dona Laura, a prendendo contra a parede da lavanderia, a mão grande subindo por baixo da sua saia, desnudando sua pele morena enquanto sussurrava que há tempos desejava aquele corpo.
Ela tinha tentado dizer não, mas no primeiro toque da boca dele no seu pescoço, na primeira roçada daquele membro rígido contra sua coxa, ela derreteu.
Ainda resistiu por algum momento, chegou esmo a empurrá-lo para trás, chegou a pensar em ameaçar contar para a dona Laura…
Mas a mão espalmada sobre a sua calcinha, logo procurando caminho para adentrar…
Entregou-se ali mesmo, em pé, entre o cheiro de sabão em pó e o suor da luxúria, perdendo completamente o controle de sua própria vida.
Primeiro a penetração de frente, difícil, depois a penetração por trás, debruçada sobre a máquina de lavar.
– Vamos lá pro quarto.
– Não!
– Vamos! É mais gostoso.
– Não! Vai logo! Vai logo!
Aquele “vai logo”, último suspiro da sua moralidade, da sua religiosidade, tentando fazer o homem gozar logo e, assim, diminuir o tempo do seu pecado.
– Então, goza… goza!
– Não!
Não teve como. Gozou possuída por outro homem.
Quão raras as vezes que gozava com o marido!
Sentiu outro homem esparramar prazer em seu ventre.
Lembrar daquela primeira vez, lembrar das vezes seguintes, fez seu ventre contrair de puro tesão. Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a sala, até o sofá.
Nunca aceitou deitar com ele na cama do casal, na cama da patroa.
…
O senhor Mauro já a aguardava, deitado no sofá de couro, a bermuda e a cueca largadas no chão, o pênis ereto e pulsante repousando contra o abdômen, exalando masculinidade e provocação.
Olhou para ela com aquele sorriso convencido de quem sabia que tinha o domínio completo sobre ela.
Ele sabia que, mais uma vez, ela viria.
— Besta! — ela murmurou, com a voz embargada pelo desejo e pela raiva de sua própria fraqueza.
Não perdeu tempo.
Sem tirar os olhos dele, puxou a calça jeans e a calcinha de uma vez só, deixando cair pelos tornozelos.
Ficou apenas com a blusinha colada, revelando as pernas grossas, fartas e a pele escura reluzindo sob a luz do sol que entrava pela varanda.
Subiu no sofá e montou sobre ele.
Mas, mesmo morrendo de vontade de sentar de uma vez só e preencher aquele vazio queimando no seu ventre, ela não o fez.
Começou antes a cumprir o ritual que ele mesmo havia ensinado a ela em uma das primeiras vezes em que se entregaram.
Inclinando o corpo para a frente, ela começou a deslizar seu sexo molhado por toda a extensão daquele pênis ereto e duro.
Vertia umidade.
Mexia o quadril, só o quadril, subia até roçar o clitóris na cabecinha quente do membro, descia devagar, espalhando todo o seu lubrificante natural da ponta até a raiz, da raiz até a ponta.
O contato pele com pele, o mormaço da fricção e a textura aveludada do corpo dele faziam-na tremer.
Fechava os olhos e soltava suspiros pesados a cada passada, sentindo-se cada vez mais encharcada, enquanto ele apenas apreciava a cena, com as mãos repousadas na cintura dela, guiando o ritmo lento daquela provocação torturante.
Suas pernas abertas, os olhos dele fixos.
— Isso, Guta, isso… lambe ele todinho com essa xana gostosa, lambe… deixa ele bem molhado… deixa eu ver… abre as pernas, abre… abre a caixa de ferramentas…
Já tinha dado briga na primeira vez que ele, além de ficar olhando a xana de Maria Augusta deslizando em seu pau, como fazia direto, ainda pedia ela abrir mais e mais a… as pernas.
Maria Augusta tomou aquele “caixa de ferramentas” como uma alusão ofensiva ao marido. Chegou a sair de cima, dizer que não ia ter mais nada, que ia pedir as contas.
Mas nada que umas lentas, demoradas, e memoráveis passadas de língua na sua caixa… na sua xana, não resolvesse o impasse criado.
– E não fale mais assim!
– Tá bom! Perdão! Eu não falo, foi sem querer. Mas deixa eu ver, deixa… abre!
Aquele pré-jogo, arrastado e milimetricamente calculado, deixava a cabeça dela em brasas.
A necessidade de ter aquilo tudo dentro dela virava uma verdadeira agonia.
Aquilo por aquilo… quer dizer, tamanho por tamanho, o mastro do senhor Mauro não se diferenciava muito do mastro do marido… ambos a serviam muito bem.
Mas havia uma grande diferença, que aprendeu logo nas primeiras vezes, entre se deitar e abrir as pernas para o marido socar, e abrir as pernas e sentar sobre o senhor Mauro para socar ele.
Todo o controle na sua cabeça, no seu quadril, na sua caixa de ferramentas aberta.
Já não aguentava mais só deslizar, a lubrificação era tanta que a pele estalava a cada roçada.
Quando não aguentou mais a tortura do próprio desejo, Maria Augusta se ergueu um pouco, alinhou a entrada encharcada com a cabeça dura do membro, soltou o corpo, e afundou de uma vez só.
— Ahhh… Deus me perdoe… — ela gemeu alto, prendendo a respiração, enquanto sentia a carne quente e ereta preenchê-la completamente, muito mais fundo e intenso por conta da preparação do ritual.
O couro do sofá começou a ranger ritmadamente.
Maria Augusta se pôs a cavalgar sobre ele com uma selvageria acumulada por aquele longo preliminar.
Primeiro subia e descia devagar, sentindo a cabeça dele roçar no fundo do seu útero, para depois acelerar os movimentos, rebolando em círculos, fazendo os seios fartos balançarem sob o tecido da blusa.
Subia e descia cada vez mais rápido, só tomando o cuidado de não descer de vez quando escapava… já havia acontecido uma vez, pensou ter danificado o homem, se apavorou diante das desculpas que teriam de inventar, mas, por sorte, havia sido só uma dorzinha momentânea.
Subia e descia, mexia e remexia, rebolava. Já nem se importava mais que ele ficasse olhando a… nem se importaria mais se ele falasse novamente caixa de ferramentas, que ele nunca mais falou.
E o senhor Mauro, segurando com força as nádegas dela, a bunda, afundando os dedos na carne morena e macia, empurrando o quadril para cima…
Ele empurrava para cima quando ela descia.
Puxava para baixo quando ela subia.
Um sincronismo perfeito, o mastro entrando e saindo de ponta a ponta, sumindo, aparecendo, ele olhando.
— Você é uma gostosa, Maria… olha o que você faz comigo… — ele rosnou, puxando o cabelo dela para trás e colando os lábios nos dela num beijo bruto, molhado, de línguas que se entrelaçavam com fúria.
A sensação da proibição, o medo do inferno e a quentura daquele homem rasgando-a por dentro criaram uma tempestade perfeita.
Maria Augusta fechou os olhos, apertando os músculos vaginais ao redor dele com força total.
O prazer subiu como uma descarga elétrica.
Começou a gemer sem pudor, esquecendo o pastor, o marido, a patroa, o mundo, a condenação.
— Isso… chupa, aperta! — ele pedia, aumentando a velocidade das estocadas por baixo, batendo forte contra ela.
Chegou o momento. Ela jogou a cabeça para trás, as pernas trêmulas, sem controle… o orgasmo a atingiu em cheio.
Uma onda paralisante de êxtase tomou seu corpo, fazendo-a gritar abafado contra o ombro dele enquanto sua vagina espasmava violentamente, ordenhando-o.
Abriu e fechou a caixa de ferramentas não sabe quantas vezes.
Sentindo o aperto insano de Maria Augusta, o senhor Mauro soltou um urro alto e se derramou inteiro dentro dela, jatos quentes que inundaram o interior dela enquanto ele a segurava firme contra seu corpo.
…
Ficaram ali por alguns minutos, colados, os peitos subindo e descendo acelerados, o suor misturado colando a pele de ambos sob o sol radiante da manhã.
– Quero mais.
– Eu também.
Somente uns quarenta minutos depois, após uma rápida lavada nas partes, com ele assistindo, vestir-se com a roupa de trabalho e tentar, em vão, apagar o cheiro de sexo que impregnava sua pele, é que Maria Augusta pegou o balde, o esfregão e o sabão e, com o corpo ainda dolorido, trêmulo e completamente saciado, começou, finalmente, a exercer sua verdadeira função de doméstica naquele apartamento.
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Anna Riglane… Jornalista, historiadora, pesquisadora do comportamento sexual humano, coletora/escritora e divulgadora de Contos Eróticos transcritos a partir de relatos dos seus leitores e/ou com base em fatos do cotidiano
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