Entre a fidelidade ao amigo e o prazer do sexo com a mulher desejada

A man sitting on a couch looking up at a woman standing and talking

Entre a fidelidade ao amigo e o prazer do sexo com a mulher desejada

Fato real.

O calor da tarde pesava no pátio da escola pública onde os três cresceram.

Alessandra caminhava à frente, o queixo sempre um centímetro mais alto do que o necessário, os olhos fixos nos carros importados que passavam pela avenida.

Atrás dela, como uma sombra obediente, Rafael.

Rafael segurava a mochila dela, o casaco dela, o refrigerante dela.

Se Alessandra pedia um favor, Rafael executava dois.

Ele vivia para prever as vontades da garota que o olhava com o desprezo reservado aos objetos úteis: gostava de ter por perto, mas só para pisar quando a poeira subia.

Ao lado, Dalton caminhava com as mãos nos bolsos.

Diferente de Rafael, ele não se curvava.

Quando Alessandra tentava mandar nele, Dalton apenas sorria, um sorriso lento que a irritava profundamente.

Ela não conseguia dominá-lo.

Desprezava a pobreza de Dalton, mas o desejava em segredo justamente por ele não se colocar de quatro.

Já com Rafael, era o oposto: ela o fazia de gato e sapato, diminuía suas roupas, satirizava seus sonhos diante de todos, e Rafael sofria calado.

Aceitava as migalhas, a dor e o escárnio só para respirar o mesmo ar que ela.

Anos depois, quando a herança do avô transformou Dalton no dono de uma fábrica de médio porte, a estrutura entre os três parecia ter mudado, mas os vícios continuavam.

Dalton logo pensou em ter junto dele o amigo inseparável e a mulher que amava em segredo, ofereceu emprego aos dois.

Alessandra, cega pelo orgulho e sem saber da riqueza repentina do rapaz, rejeitara a oferta de trabalho com um riso debochado.

Rafael aceitara na hora.

E enquanto o amigo o puxava para cima, dando-lhe um salário formidável e até mesmo um apartamento amplo, Alessandra percebeu tarde demais o erro que cometera.

Mas não se deu por vencida. Ao contrário, afiou suas garras diante da ideia de também sair ganhando, buscou contato com Dalton, seduziu-o por completo, com algumas saídas inocentes insinuações para o sexo, contou com a paixão recolhida que el já tinha com ela… e casaram-se no prazo de poucos meses.

Para Rafael, ver a mulher que amava nos braços do melhor amigo foi um golpe devastador. Engoliu o choro, desejou felicidades ao casal e continuou sendo o amigo leal de Dalton.

Seu remédio foi afastar-se dela o máximo que podia.

Três meses após o casamento, no entanto, para surpresa de Rafael, ela o procurou em seu apartamento, mostrou-se desiludida com a vida conjugal, dizendo que Dalton não era aquilo que ela imaginava, sentou-se ao lado dele no sofá, chorou em seu ombro…

– Você era para ser o meu escolhido.

A confissão de Alessandra, por mais que trouxesse de volta toda o fogo que desde sempre habitava o coração do rapaz, não foi o bastante para destruir os laços de amizade dele com Dalton.

Consolou Alessandra, fez de tudo para limpar suas lágrimas, levou-a até em casa.

– Fico triste com tudo o que você me disse, mas agora você está casada com ele, você escolheu. Tudo o que você trem a fazer é procurar mudar o seu pensamento, enxergar as coisas de uma maneira. – ele dizia.

– Mas eu queria conversar mais com você.

– Noutro dia a gente conversa. Pensei direitinho, e noutro dia a gente conversa. Agora entre, volte pra ele.

Noutro dia, uma semana depois, Alessandra retornou com uma ideia que abalou por completo as convicções de Rafael.

Depois de longos minutos chorando mais uma vez os seus infortúnios com o casamento e confessando que devia mesmo, e queria mesmo, era ficar com ele, ela lançou uma proposta, nua e crua, na bucha.

– Quero me separar dele e ficar com você, mas não quero sair do casamento de mãos abanando. Vai ser bom para mim e para você.

– O que é que vai ser bom para nós dois?

– Primeiro, que a gente pode ficar juntos… sempre te amei e não sabia. Segundo…

– Segundo…?

– Quero que você coloque ideias na cabeça dele, minhocas.

– Minhocas?

– É… minhocas. E é isso o que você vai fazer.  ela disse, sem rodeios, usando o tom autoritário de sempre, esquecida da mansidão de minutos antes. Você vai dizer que estou traindo ele, vai inventar umas coisas, deixar ele louco; eu quero ele louco, paranoico.

– Mas… pra que isso?

– Porque ele vai ficar paranoico, obsessivo, vai pedir o divórcio. Aí, então, eu vou aceitar a separação, mas sob as minhas condições.

– E que condições?

– A gente se divorcia, eu pego metade da fábrica… e então eu fico com você, rica… e eu você ricos.

Rafael recusou incondicionalmente.

Dalton sempre fora seu amigo, jamais faria uma sacanagem com ele.

Mais uma semana, e ela o procurou oferecendo uma quantia em dinheiro.

– Já que você não quer ficar comigo por causa da amizade, com ele, então, pelo menos me ajude a separar dele.

– Mas se você quer separar, é só separar.

– Mas você não entende…! eu não quero sair de mãos abanando. Quero que ele me acuse de traição… quero tirar a razão dele, quero o dinheiro dele.

– Perdão, mas vou fazer isso de jeito nenhum.

– Você é um burro, sempre foi. Podia se dar bem comigo… a gente podia… Podia nada. Você é burro mesmo, não tem jeito.

E saiu soltando faíscas.

Quinze dias depois, no entanto, ela retornou, dessa vez para dar o golpe definitivo.

– Perdão por tudo o que falei noutro dia, perdão. Mas você chegou a falar alguma coisa com ele, pra ele.

– Que tipo de coisa?

– Não sei. De repente ele parece meio estranho comigo.

– Normal. Se você trata ele mal, ele… o que você está fazendo.

Em pé, diante de Rafael, sentado no sofá, ela começa a abrir o zíper da calça.

Surpreso, vendo a calcinha branca aparecendo, Rafael sente arder com muito mais intensidade o fogo que sempre o consumira. Fica tentado a dizer para ela parar com aquilo, sabe que é tem de fazer, mas assiste paralisado ela tirar a calça pelos pés, a camiseta pela cabeça…

– A calcinha você tira. – ela diz, subindo sobre ele no sofá.

A primeira vez de Rafael com Alessandra foi uma explosão de sentidos represados por uma vida inteira… deu novo significado à sua vida.

Sobre aquele sofá ele esqueceu as tantas e tantas vezes que se imaginou com ela, e as tantas vezes, nos tempos ainda da adolescência, em que tentou ficar com ela, ganhar um beijinho.

Agora ela era dele, todinha dele.

Nem teve pressa em tirar sua calcinha, tamanha era a vontade, a necessidade, de sentir segundo a segundo, milímetro por milímetro, o sabor daquela pele, daquele corpo.

O tempo pareceu parar.

Rafael sentiu um tremor na espinha, um choque de descarrego elétrico ao tocar aquela pele que passara a juventude apenas imaginando.

O tesão era quase doloroso de tão puro.

Ela, a rainha inalcançável, a mulher que sempre o colocara por baixo de tudo e de todos, estava ali, sua, rendida à sua própria ganância.

Rafael a devorou com um apetite desesperado, cada beijo, cada toque na cintura dela era a realização do seu maior desejo oculto.

E Alessandra, vendo aquele fogo cego, retribuía com uma intensidade animal, convicta de estar manipulando o seu capacho perfeito com o seu corpo, o seu sexo.

Os encontros se multiplicaram ao longo de dois meses.

A sala do apartamento de Rafael, virou o palco de uma rotina insaciável. Alessandra ia até lá duas, três vezes por semana, sempre fazendo sexo com ele, sempre lembrado o plano de chantagem… plano que se transforma em desculpa perfeita para a libertinagem.

– Você precisa caprichar na história esta semana, Rafinha.- ela dizia, arfando, os cabelos desgrenhados sobre o sofá, enquanto ele se posicionava entre suas pernas. – Diz que não ter certeza, mas que me viu entrando no motel com um cara alto. Diz também que me viu no shopping… Já pensou? Quando o Dalton me acusar, eu nego tudo, você também não confirma nada, diz que não tem certeza. Mas é exatamente isso o que vai deixar ele louco… aí eu faço o maior escândalo e digo que não tenho segurança em conviver com ele. O juiz vai dar tudo o que eu quiser, não vai?

– Acho que sim. E quer saber, ele já está ficando louco, desconfiadíssimo. Ele me pergunta o tempo todo se eu sei demais alguma coisa… Coitado!

– Coitado por quê?

– Jeito de falar… jeito como ele está caindo na armadilha.

– Coitada é de mim?

– Por quê? Não é você que vai se dar bem?

– Nós dois vamos nos dar bem, nós dois… e você vai se dar melhor ainda, agora, hoje. Por isso é que eu sou coitada.

– Não estou entendendo.

– Vai devagar, que eu nunca fiz, tá bom! – ela diz, mostrando a ele uma bisnaga de lubrificante íntimo.

A luxúria estava completa.

Rafael era o falso amigo perfeito, para os planos de Alessandra, enganava o amigo que lhe dera tudo, vendia a honra pela carne da mulher amada e se mostrava o amante mais devoto e ardente que ela podia imaginar.

E Alessandra, já misturando seus planos com o delírio da própria carne, se entregava sem reservas, inventando posições, fazendo anal, propondo jogos, completamente embriagada pela certeza de que tinha o mundo aos seus pés.

Com o passar das semanas, a confiança de Alessandra virou deboche desmedido.

Os encontros passaram a ser comemorados com garrafas e mais garrafas de vinho caro e gin.

A sala do apartamento de Rafael se transformou em um verdadeiro cenário de devastação: garrafas vazias rolando pelo piso, taças quebradas, lingeries jogadas sobre o tapete, roupas rasgadas e o cheiro denso de álcool e fluido corporal impregnado no ar.

– Aquele imbecil do Dalton nem imagina o que estou fazendo agora. – ela dizia, rindo à solta, cavalgando Rafael sobre o piso da sala.

– Come a bundinha da esposinha daquele imbecil, come… – ela de quatro no chão, debruçada sobre o assento do sofá.

– Você falou mesmo que me viu de mãos dadas com aquele altão, falou? – perguntava, ajoelhada aos pés dele, só tirando da boca o tempo necessário para poder falar.

A tarde daquela quarta-feira, quando mais uma vez Rafael deixou o escritório da fábrica sob a alegação de visitar um cliente, o delírio no seu apartamento atingiu o ápice.

Alessandra sentia que era dia de comemorar, e bebeu até quase perder os sentidos, fez sexo com Rafael, até se sujar toda.

Nua na sala, no meio daquela bagunça libertina, ela ria alto, rebolando sobre Rafael, pedindo para ele a possuir com força, gritando ofensas ao marido entre um gemido e outro.

– Aquele imbecil do Dalton não sabe de nada… não sabe de nada.

– De nada mesmo.

– Ele nem sabe que você tá me comendo.

– Não sabe.

– Nem sabe que você come a minha bunda.

– Não.

– Come mais, come, me fode gotoso, fode a sua dona… fode… – ela balbuciava, com a voz pastosa do álcool, a cabeça pendendo para trás, subindo e descendo o corpo sobe o membro de Rafael.

Rafael a segurava firmemente pelos quadris, a entrega carnal atingindo o ponto de transe, o som dos corpos ecoando pela sala bagunçada.

Foi exatamente nesse momento de caos e suor que a porta da frente estalou secamente, fazendo um ruído que gelou a espinha de Alessandra… seu riso

debochado morrendo na garganta.

Pensou em desaparecer dali, mas tudo o que conseguiu fazer foi sair de cima de Rafael e cair sentada ao lado dele.

Na porta, um passo à frente, estava o Dalton com o seu terno alinhado, o rosto feito uma máscara de pedra: sem raiva, sem surpresa, sem dor.

Não disse uma única palavra. Nem uma frase, nem um suspiro.

Atrás dele, com os olhos arregalados de choque, pavor e vergonha profunda, o pai e a mãe de Alessandra.

A mãe cobriu a boca, soltando um ganido abafado diante da visão da filha jogada no chão, completamente nua, coberta de suor e bebida, no meio de calcinhas, garrafas e sujeira.

O pai deu dois passos para trás, a palidez cobrindo-lhe o rosto, incapaz de encarar a cena.

E quando os dois idosos se retiraram, em silêncio absoluto, arrasados pela humilhação, Dalton olhou para o ambiente, passou os olhos pelas garrafas, pelas roupas espalhadas.

Olhou para a esposa, que tentava cobrir os seios com os braços trêmulos, sem conseguir engrenar uma palavra.

Olhou para o amigo Rafael, o fiel amigo Rafael, sentado no chão, recostado no sofá, cabeça baixa.

– Depois você me manda o vídeo de hoje também, o juiz vai gostar de ver. – disse Dalton, com a voz serena, olhando fixamente para Rafael, que devolvia um meio sorriso.

Fechou a porta, conforme saía, um clique suave.

O silêncio que sobrou na sala era ensurdecedor.

Alessandra, caída sobre o piso agora frio, as palavras do marido ecoando na mente sua mente nebulosa… a descoberta de que fora ela, e não o Rafael, a trouxa naquele tempo todo.

Primeiro, veio o choro. Um choro feio, engasgado, de criança desesperada, escorrendo junto com o rímel e o suor. Mas a dor da humilhação rapidamente se transformou em um surto de raiva cega.

Tentando se levantar, as pernas bambas pela bebida fraquejaram e ela caiu de joelhos. Começou a arranhar o chão. Pegou uma garrafa de gin vazia e a arremessou contra a parede, estilhaçando o vidro por toda a sala.

– SEUS DESGRAÇADOS! — ela urrou, com toda a força que ainda lhe restava na voz. – DESGRAÇADOS! Meu pai… minha mãe… precisava?

Bêbada, arrastando-se pelo chão, começou a derrubar as cadeiras, puxar as cortinas, quebrar as taças restantes, cortando as próprias mãos no vidro sem sentir a dor física.

– Precisava? Precisava? – repetia, esbofeteando o ar, só não destruindo o apartamento que achava ter conquistado, por lhe faltar forças.

Caiu, prostrada.

Rafael, em pé no canto da sala, observava em silêncio, vestindo sua camisa devagar, vendo a amiga de outrora que tanto ele havia desejado, dando a ela o sono e o tempo necessário até ela se recompor e ir embora…

… e sabendo que tinha sido fiel o amigo; desde o início ele tinha sido fiel ao amigo.


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