Por onde anda Terezinha?

Sexo também é história ou história também é sexo, como mostra este relato enviado por alguém que já viveu muita história e, talvez, muito sexo.

Street view of Faculdade de Direito with pedestrians, vehicles, and city buildings in São Paulo

Sei que seu nome não é esse e nem faço questão de saber o verdadeiro.

Da mesma forma ela também não deve saber o meu e, talvez, nem se lembra daquela tarde que passamos juntos.

Não nos conhecíamos, nunca tínhamos visto um ao outro, mas fomos obrigados a nos amar, como dois namorados apaixonados, para evitar que ela sofresse com o que estava por lhe acontecer.

Era uma menina perto da minha idade. Apesar de ter um rosto que não mostrava mais que 16 anos, ela disse ter 20.

E eu tinha mais que o dobro.

Foi numa tarde, no longínquo ano de 1977, na cidade de São Paulo.

Crowd of students protesting with signs and flags in front of USP Law School building with mounted and helmeted police officers present

Eu precisava resolver algumas coisas na cidade e, casualmente, passei pelas imediações do Largo São Francisco.

Nem percebi que estava acontecendo uma manifestação estudantil e quando vi estava no meio da confusão, cercado por policiais com seus cavalos ameaçadores, suas armas letais e também suas bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

Meu primeiro impulso foi me afastar do local, seguindo o meu caminho, em direção à estação liberdade do Metrô (na época ainda não funcionava a estação Sé), mas acabei tendo de voltar, pois a rua estava bloqueada e também meus olhos já não aguentavam mais a ardência provocada pelo gás.

Estava na rua São Bento, quando vi um pequeno grupo de estudantes sendo perseguidos pela cavalaria.

Havia rapazes e moças que passaram por mim correndo, enquanto eu me espremia contra a parede para não ser esmagado pelos cavalos.

Depois segui na mesma direção, rumo ao Largo São Bento, pois passar pelas ruas próximas ao largo São Francisco estava impossível.

Já quase lá no largo foi que vi Terezinha.

Protesters running past mounted police officers in a city street filled with crowds and protest signs

Ela havia se escondido atrás de uma coluna e os policiais não a viram, seguiram em frente, perseguindo outros estudantes.

Estava um tanto apavorada e fui saber depois o motivo.

Ela havia jogado uma pedra e atingido em cheio o rosto de um policial. Por isso estavam mais atrás dela que propriamente dos outros estudantes daquele grupo.

Mas, além disso, Terezinha estava também com um outro problema, a bomba de efeito moral que explodirá próximo dela, havia deixado toda suja pelas pernas.

– Caminha junto comigo. – eu disse. – Assim ninguém desconfia.

E ela tomou então o meu braço e viramos pela rua XV de novembro, pois embarcar na estação São Bento também parecia impossível, tal a quantidade de policiais que por ali circulavam e procuravam.

– É uma moça de cabelos loiros e compridos. – gritava um deles.

– Está de saia jeans. – gritava outro.

Terezinha era a moça de saia jeans e cabelos longos e loiros.

Ela me olhou como que suplicando ajuda e tudo o que pude fazer naquele momento foi esgueirar-me com ela pelas paredes, em meio à multidão que, por sorte, nos dava certa proteção.

Mas quando chegamos próximo ao Pátio do Colégio, mais policiais apareceram e um deles a reconheceu.

Imediatamente se lançaram no seu encalço e eu a segui, correndo pela ladeira Porto Geral até que chegamos na rua 25 de Março.

Ali a situação se complicou mais, pois não haviam tantas pessoas na rua e ficava mais difícil nos escondermos, ou ela se esconder pois quem estava sendo caçada era ela.

Foi então que vi um hotel e me veio a ideia.

Acenei para ela e entramos.

Demos a grata sorte de estar um rapaz na portaria, que devia ser estudante também e logo percebeu o que estava acontecendo.

O normal, naquela época, seria preenchermos as fichas de hóspedes, antes de irmos para o quarto.

Mas o rapaz apenas pegou nossos documentos e indicou o quarto, dizendo que ele mesmo preencheria as fichas e depois levaria para assinarmos.

Dentro do quarto, Terezinha respirou um tanto mais aliviada.

Mas quando olhei para suas pernas, sugeri que tomasse um banho, pois o seu descontrole intestinal era bastante visível.

Um tanto constrangida, ela foi tirando a roupa e caminhou na direção do banheiro.

– Esconda bem a calcinha. – eu disse – Pois se entrarem aqui logo irão perceber.

Ela tomou um banho rápido, enquanto eu procurava ver pela janela o movimento da rua.

Mas pouco podia ver, pois estávamos num corredor entre prédios e só conseguia avistar uma pequena faixa da rua.

Foi quando o rapaz bateu na porta e fui abrir.

Terezinha estava saindo do banho naquele momento e ambos ficamos com medo de que fosse a polícia.

Mas não era. Ele trouxe as fichas para assinarmos e disse que a rua estava cheia de policiais a cavalo e também de carro.

– Devem estar procurando por alguém muito importante. – ele disse.

E foi nesse momento que Terezinha, talvez sem ter percebido direito que o rapaz estava por dentro do que estava acontecendo, resolveu fazer uma pequena encenação.

– Deve mesmo. – ela disse. – Pois nunca vimos tanta polícia na rua assim. E o pior é que ficamos tão assustados que até esquecemos de passar na farmácia. Você, por acaso, não vende camisinhas, aqui, vende?

O rapaz informou que não vendia, mas que não lhe custava correr até a farmácia mais próxima.

Enquanto ele não voltava, tentei explicar a ela que ele estava percebendo tudo e que não era necessário fingirmos na frente dele.

– Sim! – disse ela. – Mas de qualquer forma é bom termos camisinha com a gente, pois se eles entrarem aqui e não encontrarem alguma coisa que mostre que a gente está namorando.

Devo esclarecer que naquela época, embora nem se falava ainda em Aids, a liberação sexual da mulher era quase nula e que a pílula ainda era uma coisa para poucas.

Da mesma forma, camisinha era algo que se comprava escondido na farmácia.

O rapaz trouxe as camisinhas e pegou as fichas assinadas.

Nesse exato momento ouvimos alguns tiros na rua.

– Pegaram uns dois rapazes. – ele disse. – Mas, pelo que ouvi, eles estão em busca de uma moça.

Não foi preciso nenhuma palavra mais. Terezinha gelou e eu também, pois agora estávamos juntos e na certa eu seria pego junto com ela.

– Seria muito se eu te pedisse para comprar.

– Já entendi. – disse o rapaz, enquanto pegava um dinheiro da minha mão. Depois completou: – Quando eu voltar, me deem a roupa suja, que escondo no lixo.

E foi nesse momento que Terezinha me puxou para a cama.

– Coloque a camisinha. – ela dizia.

E enquanto eu tentava dizer que não era necessário, que eu não iria querer me aproveitar da situação, ela dizia que tinha medo do quarto ser invadido e que por isso seria bom mostramos estar fazendo sexo.

– Mas como é que vou colocar? – eu perguntava. – Está mole. Você não quer que ele fique ereto numa situação dessas.

E foi então que ela tirou a saia e a blusa, tirou também minha roupa e começou a brincar com o meu pênis, primeiro só com a mão, depois também com a boca.

Bateram na porta novamente e ela apertou meu pênis, pelo susto que levou.

Mas era o rapaz trazendo uma calça jeans para ela e pedindo a outra roupa. Embrulhei a calcinha suja de Terezinha na saia e pedi ao rapaz que desse um sumiço.

Ele acenou que faria isso e também falou que a rua ainda estava um tanto agitada.

– O que foi que a moça fez? – perguntou.

Eu também não sabia ainda e foi então que, de lá de cima da cama, debaixo do lençol, ela falou da pedrada que tinha acertado.

O rapaz recomendou então que ficássemos por ali mais um tempo e que ele avisaria quando as coisas estivessem mais calmas.

Sentei na cama, com a certeza de que teria toda uma tarde para ficar ali, fazendo nada, apenas para proteger aquela bonita menina da polícia.

Mas aquela bonita menina estava disposta a não ficar fazendo nada.

Logo se descobriu e me puxou para junto dela novamente.

Brincou comigo até me deixar em condições de colocar a camisinha e então se preparou para ser possuída.

– Não precisamos fazer isso. – eu disse.

– Mas eu quero. – ela falou, já ajeitando meu membro em seu sexo.

E iria ajeitar outras vezes ainda, enquanto a tarde corria e as coisas pareciam se acalmar, inclusive o seu medo.

Nos intervalos conversávamos e ela dizia ser estudante de direito e que não achava certo a situação do país, com os militares fazendo tudo o que faziam, contra o povo.

Eu, que me preocupava apenas em cuidar da minha família, pouco entendia do que ela dizia e só agora, depois de conhecer melhor as coisas é que sei por que ela e seus colegas lutavam naquele dia e naqueles tempos.

Já era de noitinha quando saímos.

Ela disse que morava para os lados de Santana e então eu a acompanhei até a estação São Bento.

Ainda havia muitos policiais na rua, muito embora pareciam não estar procurando mais nada.

Desci com ela até a plataforma de embarque e esperei que tomasse o trem.

Fui, então, até a outra plataforma onde embarquei para a Vila Mariana, o meu bairro.

Na confusão e no medo, nem trocamos telefone, endereço ou qualquer coisa mais e fiquei sem qualquer chance de poder revê-la.

Nunca mais a vi.

Na época Terezinha era uma menina, para o meu orgulho de quarentão… na época.

Hoje ela deve estar chegando aos sessenta anos (Estou com 75).

Talvez esteja casada, pois naquele dia ela confessou, envergonhadamente, que já não era virgem, já estava noiva e resolveram fazer antes do tempo.

Se estiver casada com o mesmo rapaz, peço a ele perdão, pois nenhum dos dois fez aquilo tudo por sacanagem, mas sim por pura necessidade.

E por falar em tudo isso.

Não sei onde anda também aquele rapaz do hotel, aliás, nem sei mais do hotel, pois há muito foi demolido o prédio onde ele funcionava.

O prédio onde eu e Terezinha, numa tarde qualquer do mês de agosto (uma quinta-feira, eu acho) de 1977…


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