
Enquanto ele se debatia mentalmente para escrever uma história e se remoía com uma antiga traição da esposa, não percebia a própria história que estava vivendo com a linda garota em sua companhia.
(…)
Quarta-feira -21:15 horas.
Estou no ônibus, voltando da editora. Só eu mesmo para conseguir escrever com todo esse sacolejo. O Clóvis está puto da vida comigo, pois só temos uma semana para enviar o conto para gráfica e não escrevi nada ainda. Nem ao menos tive uma ideia que fosse, para desenvolver. Xingou-me, dizendo que antes eu produzia contos diários, sempre originais e criativos e agora não consigo escrever unzinho que se seja em um mês. E ele tem razão.
Desde que fiquei sabendo daquelas coisas não consigo mais parar de pensar nos fatos. Não consigo me concentrar para escrever. Se tenho levado meus contos mensais com certa pontualidade, é porque andei aproveitando antigos escritos que andavam engavetados como porcarias. Mas agora, nem escritos antigos e muito menos ideias novas eu tenho.
A única coisa que escrevo são os pensamentos, como estou fazendo agora. O Clóvis xinga também essa minha mania de ficar escrevendo neste caderno tudo o que faço, vejo e penso. Mas, pombas! É daqui que tiro minhas ideias, ou tirava. São as coisas que vou registrando, relendo e, com isso crio novos contos, cada vez mais elaborados. É a experiência que vou acumulando.
20:00 horas.
Quase passei do ponto de ônibus hoje a tarde. Estou de partida.
Explico: O Clóvis havia sugerido que eu me isolasse por alguns dias para poder escrever o testo dentro do prazo. Lembrou-me da casinha que tenho lá naquele fim de mundo que chamamos praia, e que, do jeito que vão as coisas, vou acabar tendo de vender para poder acertar minhas contas.
Eu não tinha levado a sério, mas, comentando com a Sara, ela achou uma ótima ideia.
– É bom! – ela disse. Assim, além de você conseguir escrever e garantir os pagamentos das mensalidades da escola do Robertinho, que estão há vários meses atrasadas, também me deixa em paz um pouco. Pois ficar com ficar com você dentro de casa com este teu mau humor constante, não dá.
– Chega! – eu disse a ela. Ajude-me a arrumar as coisas que vou hoje mesmo. Para comer levo apenas o essencial. No mais, duas trocas de roupa e pronto.
– Aproveita para levar aquelas cadeiras – disse ela.
– Você está louca? Aquela porcaria de carro não aguenta nem a metade do caminho. Vou de ônibus.
– É! – disse ela. De ônibus também se vai fácil. Não há problemas em se conseguir passagens de última hora.
– Eu sei, eu sei… Até parece que você está mesmo querendo se ver livre de mim – eu disse, e com a certeza de estar dizendo a verdade.
Pois bem!
Jantei e vim aqui no meu pequeno escritório, na minha escrivaninha, escrever um pouco, enquanto me faz a digestão.
Como eu queria ter uma ideia agora!
Uma ideia boa, para desenvolver já. Em questão de uma hora ou pouco mais eu teria texto pronto. Então era só dar umas ajeitadinhas, ir dando umas retocadas e a manhã eu levaria correndo para o Clóvis. Mesmo que não fosse um daqueles textos legal, daqueles que costumo escrever, ele iria aceitar, pois não tem mesmo outro para colocar no lugar. Depois, para o mês que vem, com mais sossego, eu capricharia um conto de ganhar concurso.
Vou partir agora. Lá pelas 11 horas deverei ter chegado e me acomodado na casa da praia.
Quinta-feira
Imagino que sejam umas sete horas. Esqueci de trazer o relógio e o daqui está sem pilhas. Mais tarde vou comprar.
Ontem embarquei exatamente às 21 horas, pensando em desenvolver alguma ideia durante o trajeto. Logo me acomodei no banco e peguei o caderno para começar a escrever alguma coisa, mas não consegui. Havia uma moça sentada do meu lado que simplesmente não me deixou escrever.
Primeiramente, ela queria fogo para acender seu cigarro. Quase briguei com ela, dizendo que não se pode fumar em ônibus. Depois me lembrei que não estávamos num ônibus urbano e já não sabia se a lei valia ali também.
Disse que não fumava e que não tinha fogo e ela tratou então de arranjar com alguém.
Depois, ficou soltando baforadas em meu rosto.
Lembrei-me do tempo em que também fumava. Devo ter feito sofrer muita gente com isso, com aquele bafo horrível.
Como é que Sara podia me beijar?
Se bem que eu devia mesmo era ter continuado a fumar. Devia fumar cada vez mais e mais, e ainda queimar os cigarros mais mequetrefes que encontrasse. Só assim, acho eu, estaria dando a ela exatamente o que ela sempre mereceu.
Espere aí!
Vim para cá exatamente para esquecer esses grilos que não estão me deixando me concentrar no que eu quero e preciso e não posso ficar pensando nessas coisas agora. Ela que fique por lá. Acho que já nem estou mais ligando mesmo.
Mas como estava contando, não consegui escrever porque a moça da chaminé logo puxou conversa e não parou mais de falar. Sempre que eu pensava que ela iria dar um tempo, abria o caderno e ajeitava a caneta, lá linha ela com outro papo, outro assunto. Nem mesmo lembro direito sobre o que ela tanto falou.
Sei apenas que ela dizia estar a caminho da praia, para passar ali uma semana e esfriar sua caberá. Estava nervosa, chateada, frustrada e outras esquisitices mais, tudo porque havia descoberto que o seu noivo, com quem estava de casamento marcado para dentro de três meses, a estava traindo com sua própria prima (dele).
Traindo de ir para a cama mesmo – dizia ela. Não era só namorico não. Flagrou os dois saindo de um motel, depois de ouvir a denúncia de uma amiga. A outra, a prima, ainda tentara se desculpar, dizendo que aquela era a primeira vez, que foram só para brincar, passar o tempo, se distrair, mas que não havia nada sério entre os dois. Lembro-me de que ela ainda me perguntou se devia denunciar a moça para o namorado, mas não sei o que respondi.
Acho que até dormi um pouco, ou pelo menos cochilei, de tanto ouvir o blá blá blá da moça.
Bem que eu poderia transcrever essa sua história!
Não! Acho que não serve. Quero escrever algo bem original.
Quando desembarcamos na praia, ou antes ainda, fiquei sabendo que ela, a moça faladeira, vinha para o mesmo lado que eu. Então arrumamos um carro que me deixou aqui e continuou com ela, lá mais para perto do morro.
Ela ainda falou qualquer coisa sobre nos encontrarmos depois, mas acho que sequer prestei atenção. Tudo o que mais quero agora é escrever esse maldito conto, pois dependo do dinheiro desse texto para começar a recolocar minha vida em ordem. Se continuar como antes, entregando um bom conto todo mês, em pouco tempo consigo ajeitar as coisas.
Preciso acertar as contas, trocar aquela porcaria que chamo de carro.
Muitas vezes penso em me vingar de Sara, sair com outras mulheres. Mas como vou arranjar alguém sem grana e com uma droga de carro velho? Se tivesse um carrinho bom, poderia ter vindo para cá com ele, e, quem sabe, sair passeando por aí com aquela moça.
Até que ela é bonita. Loira, eu acho, e tem cabelos que vão até a cintura. Não é alta e parece ter um corpinho bem-feitinho. Se eu a visse de biquíni, sem a saiona que usava ontem!
Já imaginou, eu com outra, numa boa aqui na praia!
Mas cadê o carrinho?
A Sara (espero que ela não leia isso) bem que merece. Depois que descobri aquelas coisas, não há mais razão para eu ficar me dedicando totalmente a ela. A única coisa que me desequilibra e me faz manter ainda a compostura é não ter a certeza de que tudo tenha ocorrido exatamente como ela me contou, ou se, por outro lado, aconteceram muito mais coisas, como parece ser evidente.
Só de pensar que ela e aquele desgraçado…
Por que não descobri tudo isso na época em que aconteceu? Saco! Por que eu tinha de ser tão bobo e acreditar nela de olhos fechados. Se eu tivesse sido menos crédulo!
Bah…!
Vou dar umas voltas, tentar colocar minhas ideias no lugar. Tenho o dia inteiro para escrever alguma coisa. Estou certo de que conseguirei.
15:00 horas.
Deve ser. É o que marca o relógio da parede, com a pilha nova que a moça me arranjou.
Calma! Eu conto.
Estava tentando colocar em pé o pequeno portão que faz de conta que fecha o quintal da casa. Ia sair para caminhar, quando ouvi alguém gritar ao longe. Era a bendita moça. Chegou até onde eu estava e começamos a conversar. Perguntou se eu ia para a praia. Falei que ia caminhar, refrescar as ideias. Perguntou, ou ofereceu-se para ir junto. Disse estar também precisando relaxar um pouco. Comentou que fora muito difícil permanecer sozinha na casa a noite toda. Pediu para eu guardar o pequeno rádio que estava ouvindo e rumamos para a praia.
Estive com ela até agora.
Fomos conversando até a beira da praia, ela falando sem parar, do seu grande drama, dizendo que não sabe o que fazer com o noivo, que ainda gosta dele, mas que acha que não pode voltar a encará-lo do mesmo jeito que antes, depois de tudo o que aconteceu. E nisso eu concordei com ela, pois não se consegue mesmo. Perguntou-me se devia continuar com ele, apesar de tudo. Tentei responder que não sabia, mas ela não deixou. Aliás, quase não deixava mesmo que eu falasse.
– E se eu desse o troco a ele? – perguntou, de repente. – E se eu fizesse a mesma coisa que ele me fez?
– Por certo que ele não iria gostar – respondi.
– Mas pelo menos eu estaria vingada – disse ela, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa mais. – E vingada, eu poderia então olhar para ele de igual. Não é mesmo?
Eu já pensava em procurar um lugar mais fresco, pois o sol da manhã estava escaldante, quando ela começou a tirar o vestido amarelo que usava. Levei um susto, mas logo vi que estava usando biquíni, ao invés de calcinha e sutiã. Até que a roupa de banho preta dava um realce muito bonito à sua pele loira, porém bronzeada; a famosa pele cor de jambo.
Correu para a água e de lá gritou para que eu entrasse também. Nem me havia ocorrido tomar banho de mar, estava de bermuda e camiseta. Entrei na água até os joelhos, carregando na mão o seu vestido, enquanto ela se molhava toda, brincando na água, feito criança.
Eu pensava na sua história. Estava bronqueada por causa da traição do noivo. Sorte dela que descobriu isso antes de se casar, no ato, e não muito tempo depois, como aconteceu comigo. Ela ainda pode esquecer de vez ou até se casar com o rapaz, mas seja lá o que ela vier a fazer, será feito com consciência dos fatos. Será feito porque ela quis e não porque não sabia das coisas.
Quanto a mim. Eu não sabia de nada. Nunca suspeitei de nada e nem tive um amigo ou amiga que me desse uma luz pelo menos, uma dica. Simplesmente eu via o Jorge como um amigo de Sara, que frequentava sua casa. Nunca poderia suspeitar que as coisas estavam naquele ponto.
E lá estava eu, pensando novamente no meu drama, enquanto a moça parecendo estar esquecida do seu, divertia-se na água. Meu consolo, às vezes, é pensar que tudo possa ter acontecido exatamente como Sara me contou, que tudo não passou de um simples beijo, num dia qualquer de alegria por causa da bebida. Mas será que foi só isso mesmo?
Será que não houve muito mais?
Como pode ter acontecido apenas isso, como ela diz, e nunca mais terem tocado no assunto? Como, se ele frequentava sua casa direto e estavam sempre juntos? Acho que poderia até esquecer tudo isso de vez e perdoá-la, se viesse a saber exatamente toda a verdade, tudo, nos mínimos detalhes.
Onde foi? Por que foi? O que aconteceu antes? O que aconteceu depois? Local, hora, tudo, tudo, tudo…
Mas isso, sei que nunca vou saber, muito embora seja a coisa que mais desejo no momento.
E cá estou, mergulhando nessas torturas novamente; torturas que não me largam há meses. Não quero mais! Preciso parar com isso.
Bom… a moça brincou bastante na água e depois queria me puxar para dentro também. Corri, mas ela correu atrás, me agarrando, toda molhada, me puxando. Confesso que não pude resistir e fiquei com o membro ereto, coisa que não tem acontecido com tanta frequência nos últimos tempos. Ainda bem que estávamos praticamente sozinhos ali, naquele canto de praia. Ela fingiu desistir de me puxar para a água e sugeriu caminharmos.
Mal me descuidei, porém, e estávamos caídos na água, encharcados, inclusive o seu vestido. Brincamos um bom tempo assim, e ela corria, dizendo que se eu a pegasse, ganharia um prêmio. Quando consegui alcançá-la, segurei-a quase abraçando, cobrando o prometido.
– Você acaba de ganhar uma cerveja. – ela disse.
Eu não sabia qual era exatamente o prêmio que esperava receber, mas com certeza não era uma cerveja. Caminhamos um pouco até achar um lugar onde comemos um lanche e tomamos a cerveja, que eu paguei, pois ela não levara dinheiro. Depois voltamos a caminho de nossas casas. O sol estava calcinando. Ela havia colocado o vestido molhado sobre o biquíni e seus contornos nítidos provocavam mais que sua quase nudez anterior.
Em casa, fui pegar seu rádio, lembrei da pilha que eu precisava comprar e então ela ofereceu uma. Coloquei no relógio e acertei a hora, mais ou menos.
Por pouco não a convidei para entrar e ficar comigo. Porém, não achei adequado. Fiquei no portão, enquanto ela se foi, dizendo passar por aqui mais. Mas não sei se falou sério. Por via das dúvidas, estou aproveitando para escrever agora o meu diário. Daqui a pouco vou começar firme no conto. Tenho certeza de que agora vai sair.
Já tenho a ideia.
Veja!
Num lindo dia de sol, um pequeno avião sobrevoa a praia, procurando um local para pousar, pois estava em pane. No entanto, as pessoas que brincavam na água ou na areia, não percebem o drama do piloto e não abrem espaço para o pouso. Pensam tratar-se de uma exibição.
Apenas um homem se dá conta do fato e sai gritando para que todos deixem livre a areia. As pessoas começam a percebem o que estava acontecendo e saem ou para a água ou para a margem da praia. O avião finalmente pousa e dele salta uma linda moça, assustada, e agradecida…
Acho que, finalmente, encontrei a ideia genial para o conto. A moça bem que poderia ser uma fugitiva do próprio marido a quem ela havia flagrado com outra.
Desesperada, ela apanha o avião que mantinham na mansão e foge, sem destino. Mas não sabia que o aparelho estava com problemas e, após pouco mais de uma hora de voo, sente que precisa fazer um pouso de emergência.
Salva pelo homem que estava na praia, tentando escrever um livro, passam a morar juntos na casa que ele havia alugado. Então começa um romance, até que, tempos depois, ela descobre estar grávida, mas tem dúvida sobre quem seria o pai, se ele ou o marido.
Preciso pensar agora sobre o desfecho, após essa descoberta. Mas isso não é problema. O mais importante, que é a ideia, eu já tenho. O resto é só desenvolver.
Vou para a máquina agora.
23:00 horas.
Já escrevi quatro laudas do conto. Está ficando uma maravilha. Estou caprichando bastante e enfatizei, dramatizei ao máximo, a parte em que ela procura desesperadamente, um lugar para pousar na praia, mas pensando em não machucar as pessoas.
Coloquei até um momento em que ela resolve deixar cair o avião no mar, dando sua vida para não tirar a dos outros, que não tinham nada a ver com os seus problemas. Só não escrevi mais porque recebi visita. Adivinhe de quem!
Mas até que foi bom. Trouxe-me alguns bolinhos que fizera, ajudou-me com ideias para o conto e ainda deu uma geral na casa.
O chato foi aguentar sua choradeira por causa do chifre que levou do noivo. Fica a todo instante me perguntando o que deve fazer. Se deve aceitá-lo como se nada tivesse acontecido, se deve primeiro dar um chá de espera, ou se convém dar o troco, fazendo o mesmo que ele fez. Ela pergunta, como se eu fosse o dono da verdade e tivesse a resposta para tudo.
Mas o bom disso é que enquanto a ouço falar de seus problemas, esqueço um pouco os meus, não fico me perguntando o que foi que Sara fez ou deixou de fazer com aquele outro.
Ficamos um tempão tomando sol no gramado, aqui nos fundos da casa. Gramado que, aliás, está precisando de uma boa aparada. Conversamos muito. Eu estava de shorts e agora quem não estava de roupa adequada era ela. Tentou de todos os jeitos ficar à vontade, mas a roupa a incomodava. – Vou tirar! – disse então, e ficou só de calcinha e sutiã. Quase adormecemos na grama, batendo papo, contando piadas, rindo.
– Já imaginou eu colocando chifre em meu noivo? – disse ela, em dado momento.
– Ele vai ficar uma arara. – acrescentei.
– Pois é – disse ela. – O problema é que traição de homem quase toda mulher perdoa, aceita. Mas traição de mulher, homem nenhum engole.
Ela tem razão. Sei disso porque o meu caso assim o demonstra.
Mas, por incrível que pareça, pela primeira vez não fiquei pensando na traição de Sara. Mais gostoso que isso foi ficar deitado na grama junto com a moça, olhando aquela sua bundinha arrebitada, exposta para o céu, prontinha para…
Não sou capaz de descrever as vontades que tive naqueles momentos, olhando aquelas pernas perfeitas, aquele traseirinho enlouquecedor. Por pouco não perdi a cabeça.
Ela preparou o jantar. Não havia muito o que ser feito, mesmo assim, porém, demonstrou ser uma excelente cozinheira. Já de noitinha, eu e levei até sua casa e combinamos ir juntos à praia, amanhã cedo. Então agora, o que tenho a fazer, é varar a noite escrevendo, para assim ter o dia livre amanhã. Quem sabe!
Sexta-feira – 06:00 horas.
Não consegui ficar escrevendo a noite toda. Acho que não passei da meia noite. Não consegui solucionar o problema do avião estacionando na praia. O marido da mulher logo faria uma busca e descobriria a aeronave. O que faria? Mataria a mulher, por achá-la em companhia de outro? Levaria de volta?
Pensei em afundar o avião, destruí-lo, mas não consegui achar um jeito de fazer isso e, ao mesmo tempo, manter a moça viva e sem grandes ferimentos. Se isso fosse feito, o salvamento poderia ficar mais dramático e da maior sustentação ainda à paixão entre os dois.
Mas não tem problema. Sei que ainda tenho alguns dias de prazo e sei também que minha cabeça vai voltar, aliás, já voltou a funcionar como ela deve. Já parei de pensar o tempo todo em Sara e na sacanagem que ele me fez com aquele desgraçado. Não estou mais me atormentando com isso. Coisas mais agradáveis estão tomando o lugar daqueles pensamentos ruins. e quando estou assim, fico profundamente criativo.
Paula (esse é o nome dela) está me chamando no portão. Vou atendê-la.
14:00 horas.
Incrível o que aconteceu.
Paula chegou apenas com uma camiseta cobrindo as duas peças do biquíni em seu corpo. Coloquei o meu maiô e fomos para a praia. Até que ela não estava muito conversadeira no caminho de ida e queria mesmo era saber da minha vida, o que eu faço além de escrever, quanto tempo tenho de casado, como é minha mulher, e outra coisas. Estranho! Para quem só falava dela mesmo!
Cheguei a falar alguma coisa sobre Sara, o que aconteceu entre a gente, o caso que ela manteve quando ainda éramos noivos.
– Vai ver que foi só mesmo aquele beijo. – disse ela, defendendo a outra. Depois acrescentou: – Essas coisas acontecem.
– Mas o cara não saía da casa dela! – eu disse.
– Mesmo assim. – ela argumentou. – Pode mesmo ter acontecido uma vez só. Você sabe, bebida, alguma outra razão qualquer… e depois pode nunca ter acontecido mais nada.
– Não consigo acreditar nisso. – falei.
– Pois pior é o meu caso. – disse ela, falando agora de si. – Não foi apenas um simples beijo. Foi coisa duradoura mesmo. e o pior é que o tonto do namorado da prima acha que ela é a maior santa.
– Eu também achava que minha mulher era.
– Está certo. – ela disse. Mas no caso deles, ele acha que ela ainda é virgem. Como é que ela vai esconder isso dele quando se casarem, ou então quando tiverem a primeira vez entre eles?
– Sei lá. – eu disse. – As mulheres sempre dão um jeito de se passarem por virgens. Se bem que isso hoje em dia já nem pesa mais.
– Eu ainda sou virgem. – ela disse. – e venho me guardando, quer dizer, vinha. Já não sei mais se vou ficar com ele.
– Vai sim. – eu disse. – Ainda gosta muito dele.
Houve então um silêncio, que ela quebrou, perguntando:
– É possível mesmo para uma mulher se fazer passar por virgem?
– Claro que é! – respondi.
Na verdade, eu estava usando uma ideia que usara em um dos meus contos. Foi então que me bateu um clarão e então me perguntei se, por ventura, Sara não tenha usado de algum artifício para fingir virgindade. Chacoalhei a cabeça e me neguei a acreditar que ela tenha sido capaz de tanto.
Tentei fugir da ideia e Paula ajudou-me.
– Quer dizer que é possível para mim transar com alguém e depois fingir que sou virgenzinha? – perguntou.
– Tudo é possível. – falei, pulando na água.
Livrou-se da camiseta, jogou-a na areia e juntou-se a mim.
Brincamos muito, como duas crianças. Tomamos caipirinha de um vendedor que passava. Um copo dos grandes cada um. Ficamos sentados, olhando as ondas, que agora eram maiores, mais coloridas, mais…
– Você acha que eu deveria trair meu noivo? – perguntou ela, quebrando o encanto das ondas.
– O quê? – perguntei.
– Nada! – ela disse. – Só estava pensando uma coisa. Você teria coragem de trair sua mulher?
– Nunca a traí.
– Nunca mesmo? Nem esteve próximo?
– Acho que não!
Então, sem que eu esperasse, deu-me um leve beijo na boca. E depois acrescentou:
– Acabou de trair agora.
Aquilo havia me embriagado mais que a bebida e eu queria repetir outras tantas vezes. Brinquei, tentando obter mais.
– Trai não! Fui forçado. Não foi eu quem…
Seus lábios se ofereceram e eu a beijei mais uma, duas, três vezes.
Como era gostoso beijar lábios diferentes, bem mais jovens, bonitos, carnudos, sedentos. Havia um calor especial, uma coisa especial. Acho que só e beijar Sara, seus lábios já não têm o mesmo sabor para mim, ainda mais depois que fiquei sabendo…
Não! Não era hora para pensar nisso. Era hora sim de curtir a vibração que dominava meu corpo e que há muito já não sentia. Uma tontura gostosa, envolvente, um calor subindo pelo corpo. Aquela boquinha gostosa já era pouco. Eu tinha uma praia que queria o mar, o universo. Minha mão arrancou para o sol seu lindo par de seios. Eu os queria. Ela bronqueou, enquanto procurava se recompor.
– Aqui não!
– Aonde, aonde, aonde?
– Tua casa é mais perto que a minha.
Dali pra frente foram poucas as palavras. Não eram necessárias. Caminhamos apressados como duas crianças indo roubar frutas no pomar do vizinho. Ela nem sequer vestiu a camiseta. Deixei o portão caído, como ele gostava de ficar. Nos abraçamos sem ainda ter fechado direito a porta der entrada. Nos beijamos. Empurrei a porta com o pé. Ajoelhei-me diante dela, colocando o trinco, beijando seu ventre, escorregando seu biquíni pelas pernas.
Que loucura aquele corpinho lindo, maravilhoso, na minha frente, inteiramente nu, prontinho para ser meu. O monte de pelos em volta de seu sexo, apesar de escurão, era uma aurora iluminando o céu, colorindo os campos, irradiando a vida, a minha vida. Enrijeci-me de cima a baixo. Há quanto tempo não sentia um tesão assim? Ou será que alguma vez eu já sentira com essa intensidade? Nem mesmo com Sara, em nossa lua-de-mel.
Sara iria ter agora o que bem merecia. Por muito tempo mantive-me fiel, acreditando que não tinha o direito de enganá-la. Mas a verdade sempre aparece.
Não queria lembrar disso naquele momento, não podia. Minha vontade era abrir as pernas de Paula e, ali mesmo, de pé, acariciar com a língua o róseo da sua carne ardente. Mas ela puxou-me, levantou-me, arrastou-me para o chuveiro. Eu não queria banho. Queria fazer amor, possuí-la penetrá-la, gozar com ela. Parecia não haver mais tempo para mim e tudo precisava ser feito às pressas. A água do chuveiro, meio morna, os corpos ensaboados, a caipirinha da praia fazendo efeito, eu como um homem de verdade, em toda a sua fúria, e não apenas como um simples cumpridor de dever.
Paula ajoelhou-se a meus pés e a loucura tomou conta de mim quando seus lábios carnudos e gostosos envolveram meu membro. Por pouco não me acabo ali mesmo, em sua boca. Boca de fêmea no cio, ávida para satisfazer o macho. Retribui o gesto. Encostei-a na parede, abri-lhe as a pernas o tanto quanto podia abrir, sorvi o líquido que escorria pelos seus grandes lábios; água misturada com o prazer emanado dela, de suas taras mais profundas.
Fiz com a língua aquilo que causava nela gritos alucinantes. Ela agarrava meus cabelos, jogava o corpo para frente e para trás, erguia ora uma perna, ora outra, queria gozar. Nos enxugamos tão rápido quando nossas vontades pediam e então a carreguei para o quarto, para a cama.
– Depois você vai ter de me ensinar como me fazer passar por virgem.
Eu não podia crer que aquele corpinho miúdo, gostoso, aquele rostinho lindo e charmoso, aqueles seios durinhos, aquelas pernas, suas nádegas, eram tudo meu. Seus longos cabelos molhados balançavam soltos, chicoteando seu próprio corpo e seus gritos penetrando, rasgando meus tímpanos no mesmo ritmo em que eu penetrava seu ventre.
– Devagar! Vá devagar!
Foi o melhor tesão de toda minha vida. Não sei tudo o que fizemos. Tudo o que sei é que ela ainda está lá, na cama, largada, desmaiada, completamente indiferente a esse mundo. Tudo o que sei é que estou pisando na lua, feliz como nunca me senti.
O sangue da moça em manchas naquele lençol que preciso jogar fora depois. O sangue da minha cabeça, fervendo em mil possibilidades, latejando ainda as coisas que ela gritava querer fazer ainda comigo. Estou para viver um paraíso nos próximos dias. Que se dane meu conto! Escrevo qualquer coisa e pronto. Que se dane Sara! Está apenas recebendo o troco. Que se dane o noivo de Paulo. Por que ele pode e ela não?
Agora vou toma um outro banho, comer alguma coisa, que estou faminto. Quando ela acordar vai tomar banho também. Vou ficar olhando da porta. Depois preparei algo para ela comer.
Sexta – 23:45 horas
Paula esqueceu que tem uma casa.
Depois de dormir um tempão, largada lá na cama, passou por mim na sala, onde eu escrevia, entrou no banheiro e ficou um longo tempo com a água aberta, cantarolando. Tive vontade de ir lá apreciar novamente aquele corpinho ensaboado, mas contive-me; já havia recebido uma dose bastante grande de mulher e esperaria para mais tarde, para então receber mais. Aproveitei para escrever alguma coisa.
O avião da moça foi localizado pela aeronáutica, com a ajuda de pessoas que o denunciaram ali. Mas localizar o proprietário parecia impossível, pois o aparelho não estava registrado em nome de ninguém. Enquanto a polícia fazia as investigações, homens a serviço do marido da mulher, agindo discretamente, tentam obter sua localização.
Alguém, conhecido do escritor, leva até ele esse fato, o que o leva a questionar a moça para que ela fale toda a verdade. Descobre então que o marido dela é um grande traficante de drogas e que estava na iminência de ser preso, quando ela fugiu, para não estar envolvida também. Teme agora que ele quer vê-la morta, para não ser por ela denunciado.
Isso foi o que saiu. Porém, acho que está parecendo muito mais um romance policial, do que um conto romântico. Desse jeito vai ficar muito longo e deixar de ser um conto. Mas vou dar um jeito.
Pois bem! Quando a Paula saiu do banheiro, já era por volta das 17:00 horas, preparamos e comemos algo rápido. Ela vestia apenas uma calcinha e uma camisa (a minha camisa) que, a princípio estava abotoada até a altura dos seios, mas que depois, a cada vez que eu olhava, estava com mais um botão aberto. Até que ficou aberta de vez.
Contou-me algo que achei interessante.
– Sabe? – disse ela. – Por incrível que pareça, aconteceu comigo exatamente como eu sempre imaginava acontecer. Minha primeira vez, embora eu sempre tivesse certeza de que seria com o meu noivo ou marido, permitia que minha imaginação me levasse sempre a fazer com um homem que eu acabara de conhecer. Sempre me via conhecendo alguém, numa situação difícil para um ou para o outro… e nessa de tentar consolar, acabava acontecendo. Até parece que estava previsto, escrito.
– Mas eu acho que você só fez comigo para se vingar do noivo. – falei.
– De modo algum. – disse ela. – Nem pensei nisso. Só me deu vontade e pronto. Eu até havia pensando em vingança. Lembra? Mas o que aconteceu hoje não estava levando nada daquilo em consideração. Acho apenas que me senti mais livre. De repente, me dei conta de que posso. O mais gozado é que tudo bate; um homem que eu mal conheço, um tanto mais velho que eu, com problemas no casamento…
– Seu amante imaginário era casado? – perguntei.
– Sempre foi. E o mais incrível ainda é a casa na praia. Sempre acontecia numa casa de praia. Numa casa que eu nem conhecia. Não é engraçado?
– Se é engraçado eu não sei. – respondi. – Só sei que foi maravilhoso.
– Foi? – perguntou ela, de modo muito insinuante, colocando-se em pé ã minha frente, abrindo as faces da camisa, expondo-se. Depois, surpreendentemente, saiu para o quintal. Fui junto e abracei-a, por detrás, na grama.
– Quantos dias você pretende ficar aqui? – perguntou.
– Já nem sei mais. – respondi. – Acho que enquanto você ficar eu também fico.
– Então vai dar tempo de acontecer tudo exatamente como na minha imaginação.
– E o que mais falta acontecer? – perguntei, já com uma certa ansiedade.
– Muita coisa. – disse ela. – Só não sei se vou ter coragem. Mas vou tentar seguir à risca os meus sonhos.
– Assim você me enlouquece. Diz logo o que é esse tudo.
– Não digo nada. Quando acontecer você vai estar junto, participando. Agora eu quero é tomar bastante sol, para bronzear um pouco o meu corpo branquelo.
– Mas o sol já está quase indo embora.
– Essa é a melhor hora.
E calou-se como se já não me quisesse mais ali. Pedi se podia e ela mandou que eu viesse escrever mais um pouco.
– Depois teremos a noite toda pela frente. – ela disse, enquanto eu me afastava.
E tivemos mesmo. Adiantei um excelente pedaço da história, até que ela entrou e me abraçou por trás, arrastando-me, em seguida, para a cama. E lá, sobre o mesmo lençol manchado de sangue, aconteceu tudo novamente.
Era simplesmente alucinante sentir mais uma vez seus lábios envolvendo minha glande, sua língua escorregando pelo meu membro ereto. Sentia vontade de penetrá-la por onde quer que fosse, com fúria, com tesão.
Era simplesmente alucinante como ela abria suas pernas e se entregava aos prazeres que minha língua provocava em suas coxas, em volta de sua vulva, por entre seus grandes lábios, em seu clitóris. Gritava e gemia, dando-me mais prazer ainda por seu eu quem provocava tudo aquilo em seu corpo, tanto prazer.
Era simplesmente alucinante como ela me abraçava com braços e pernas, sentindo a penetração profunda do meu membro em seu ventre, remexendo-se como que fora do ritmo consigo mesmo. Unhava-me todo.
Era simplesmente alucinante como ela me cavalgava, ficando de cócoras sobre o meu corpo, subindo e descendo, fazendo aparecer e desaparecer o falo em sua vagina já jorrando umidade. Era gostoso quando sumia dentro dela e ela gritava, remexendo os quadris, me agarrando, contorcendo-se.
Era simplesmente alucinante vê-la gozar. Era loucura gozar dentro dela, despejar-me todo, misturar meu esperma com a sua umidade, para depois ver tudo escorrer como um manjar de prazer. Era bom demais ficarmos largados, lado a lado, tentando recompor nossas respirações.
– Posso te falar uma coisa? – perguntei.
– Fala! – disse ela, fazendo menção de pegar um cigarro.
– Não vai fumar agora, não!
– Faz dois dias que quase nem fumo. Mas o que é que você quer falar?
– É que não está parecendo que essa foi a sua primeira vez.
– E não foi mesmo. – respondeu.
– Eu sabia! – eu disse, pois estava claro que ela já tinha uma grande experiência.
– Minha primeira vez foi ontem à tarde. – falou rindo, e depois perguntou: – Mas faz alguma diferença se é minha primeira vez ou não?
– Não. Tanto não faz que não há necessidade de mentir. Não é mesmo?
– Mas não é mentira… e também não é verdade. – falou ela, dando uma pausa, enquanto eu olhava para o teto, esperando que concluísse. Enfim, continuou: – Digamos que eu realmente não sou marinheira de primeira viagem, mas que ainda sou virgem, ou pelo menos era, até ontem.
– Tá ficando ainda mais complicado. – falei.
– Então vou ser mais clara. – disse ela, sentando-se na cama, exibindo seu lindo par de seios, seus cabelos desarrumados. – Eu e meu noivo já fomos para a cama várias vezes, já estivemos em motéis, mas continuei virgem. Só fazíamos essas coisas aí… com a boca, com a mão.
– Pelo visto, já deve ter feito bastante mesmo.
– É. Ele me ensinou tudinho essas coisas, e também…
– Também o que?
– Depois eu falo.
– Agora! – eu disse, também me sentando na cama.
– Depois. – ela disse. – Segundo minhas fantasias, vou fazer com você também. Mas só falo quando for fazer.
Ia saindo da cama, em busca do cigarro, quando a peguei e a segurei.
– Você fala agora! – eu disse. – Não vai me deixar nessa agonia.
Eu até já adivinhava o que era, mas precisava ouvir de sua boca. Então, ela colocou-se de costas para mim, encostou-se em meu corpo, roçando suavemente suas nádegas em meu ventre, sorrindo matreiramente.
– Entendeu, ou precisa dizer mais?
– Entendi. Claro que entendi. E quero agora. – falei.
A ideia me excitava demais.
– Agora não. Temos tempo ainda. E também não estou disposta. Quem sabe amanhã!
Simplesmente esqueci o porquê de estar aqui na praia, depois assumir aquela expectativa. Simplesmente esquecera de Sara, dos beijos de Sara com Jorge. Não me interessava mais saber se ela foi ou não para a cama com ele. Paula Estava ali agora e isso é o que importava. Minha cabeça havia sido feita e eu estava feliz.
Até a ideia de escrever o conto pareceu sem sentido.
Mesmo assim, sei que é preciso escrever, pois é o meu ganha mão. Mas acho que ficou mais fácil. Sem ficar pensando em Sara eu consigo criar muito mais.
Depois escrevo.
Agora quero curtir essa gatinha que parece vai ficar morando aqui nesses dias e quem sabe nossas doidices continuem mesmo depois de voltarmos para nossas verdadeiras casas?
Depois daquela hora, ainda tivemos mais uma relação bem gostosa, no sofá da sala. Eu sentado, sentada, ou agachada sobre mim, de frente para mim, com seus seios subindo e descendo num desfile enlouquecedor perante meus olhos. Por vária vezes tive de segurá-la para conter seus movimentos, pois temia mesmo que ela me machucasse, caso meu membro escapasse de sua vagina e sentasse sobre o mesmo. Depois de quase exauridos, ainda acendi-me com a ideia de…
– Só amanhã! Só amanhã. – disse ela. Calma!
Está dormindo agora, ali no sofá. Depois eu a carrego para a cama.
Agora vou escrever um pouco. Vou tirar a parte em que o traficante quer matar a moça. Na verdade, ele é um tremendo apaixonado por ela e quer tê-la de volta. Mas bandido como é, será que vai querer matar o escritor quando souber que sua mulher se deitou com ele? E tem ainda o problema da gravidez. Ele não vai aceitá-la de volta, grávida, com um filho que não sabe de quem é. Terei que inventar exames, coisas assim.
Mas espere aí! O sentido do conto é fazer com que a moça fique com o rapaz que ela conhecera, não é? Ou seria mais interessante que eles tenham apenas uma aventura? Que tal se eles se divertissem bastante e depois cada um voltasse para a sua vida normal? Aliás, preciso definir direito se ele é casado, noivo.
Acho que vou começar tudo novamente, arrumar uma esposa para o escritor, um casamento caído, uma aventura, e depois cada um volta para o seu par, crentes de que tudo recomeçara às mil maravilhas. É isso que vou fazer agora mesmo.
Deixe a Paula dormindo aqui no sofá mesmo, sob a luz, para que os pernilongos não a devorem. Vou varar a noite escrevendo. Sei que agora vai ficar perfeito.
Sábado – 07:00 horas.
Dormi um pouco só esta noite, aos pés do sofá, protegendo Paula, caso ela rolasse para o chão. Reescrevi a história e parece que está ficando bom. Estou na parte em que o marido descobre que ela está grávida e não sabem de quem é o filho. Encara de frente o escritor, mas não pensa em usar de violência. Está na dúvida entre apagar tudo e ter de volta a mulher que ama ou por tudo a perder por causa do ciúme. Quanto à sua prisão, inventei um acordo entre ele e a polícia para que ajude as autoridades a desvendar certos crimes em troca da sua liberdade, mesmo que temporária.
Só que não estou gostando dessa ideia. Parece um tanto forçada. Mas é o que me aparece como solução para o momento. Vou ver se arrumo algo melhor, depois.
A Paula acordou há pouco, tomou um banho, meteu-se num vestidinho preto, que havia apanhado da última vez em que esteve em sua casa, e agora está preparando o café.
Hoje deve acontecer.
Vai ser loucura. Sempre tive vontade de fazer isso, mas nunca consegui convencer a Sara. Aliás, faz muito tempo que nem sequer tento. A danada da Paula está agora me abraçando por detrás e lendo o que estou escrevendo. Está dizendo que se eu não rasgar ou apagar o que está escrito, não vai acontecer. Quer que eu vá tomar café, mas não temos pão… ah sim… está dizendo para irmos até a padaria comprar uns pãezinhos bem gostosos e… Mas aí o café vai esfriar… faz outro, comprar pão, leite, bolachas, farmácia… Farmácia? Comprar uma… ah não… passar numa farmácia. Para quê? Não vá inventar que desceu para você. Não? Ainda bem! Já prensou, atrapalhar tudo agora? Mas por que então temos de passar na farmácia? Se for para comprar camisinha agora já é tarde. E a maldita está me dizendo que devia mesmo ter usado camisinha pois não toma pílula nem nada. Só faltava agora eu ser pai… já estou indo.
15:00 horas.
Agora a Paula está dormindo. Como gosta de dormir!
Também pudera!
Não há quem aguente mesmo o que estamos fazendo, o que temos feito. Eu também já dormi um pouco e só estou acordado, escrevendo, porque preciso entregar essa porcaria de conto. Acho que vou tirar aquele acordo do traficante com a polícia. Está sugerindo fraqueza por parte das autoridades. Não fica bem. Paula sugeriu que eu inventasse alguma coisa como uma doença incurável ou algo assim. Diz que adora essas coisas nos romances que lê.
Mas eu acho meio fora de moda. Além do mais, colocar doença em quem? E no que isso mudaria a história? Enquanto não vem a ideia, deixe-me contar o meu dia de hoje até agora.
Estou simplesmente radiante com tudo o que tenho vivido nesses dias, mas o que aconteceu hoje parece que foi a encarnação de um velho desejo que sempre tive e que a maldita Sara nunca soube ou não quis realizar. Por falar em Sara, será que naqueles tempos, ela e Jorge, para manter sua virgindade… será que também não iam só “brincar”?
Deus, faça-me esquecer Sara!
Quem me importa agora é essa ternura que me fez sentir uma cara de sorte, muita sorte mesmo. Hoje de manhã, saímos para a padaria. Ela com aquele vestido preto, esvoaçante. Não havia quem não olhasse, quem não suspirasse mais profundamente e, diria mais, quem não corresse a descarregar o tesão em cima da própria mulher, ou na mão mesmo.
Senti-me o dono do mundo por estar desfilando com aquela gracinha, vendo os homens babarem e as mulheres torcerem os narizes. Eu dizia a todos eles, seus trouxas! Enquanto vocês ficam ai, se mordendo de desejos, eu estou comendo direto, isso aqui é só meu. Olhem! Fui eu quem tirou a virgindade dela.
Na porta da padaria, ela lembrou que precisávamos ir na farmácia, comprar vaselina. Entendi tudo, amei tudo. Só que farmácia por ali, nem pensar. Fui me informar com o dono da padaria, e ele me desanimou de vez, pois além de estar longe, só estaria aberta muito mais tarde. Então, num golpe de sorte, olhei para a prateleira, na seção “tem de tudo”, e vi alguns potinhos empoeirados.
Quando pedi a vaselina o homem deu-me uma olhada maliciosa e, depois, continuou secando a Paula, que já estava na calçada.
Voltamos para casa.
Tentarei descrever o que aconteceu depois que chegamos e tomamos o café da manhã, requentado.
Primeiro as tradicionais carícias que, fazendo com ela, parecem mil vezes mais gostosas que com sara. Minha boca em sua boca, sua boca na minha, minha boca em seus seios, em seu sexo… tudo isso ainda em pé, na cozinha. encostados na pia da cozinha.
Penetrei a Paula por detrás.
Debruçada na pia, ela levantou de tal maneira o quadril que meu pênis entrou por sua vagina tão profundamente, parecendo até tocar seu útero. Agarrei-me ä borda da pia e a prensei contra mesma. Ficou sem movimentos e então só eu agi, feito um louco, indo e vindo, vibrando, entrando e saindo do seu sexo ardente.
Ela desfaleceu sobre a pia, sobre a louça que secava. Ainda brinquei com ela um tempo até me sair e arrastá-la dali para o sofá. Eu não quis terminar ali. Havia algo melhor me esperando.
Paula ajoelhada no chão da sala, debruçada sobre o sofá, seu vestido jogado sobre as costas, sua bundinha latejante, oferecida. Meu membro lambuzado de vaselina.
Paula é uma loucura em pessoa. Parece mesmo ter muita experiência nisso. Sim, pois foi ela quem comandou tudo, e mais que isso, demonstrou gostar bastante. Não foi uma penetração tão rápida como eu imaginava, como eu fantasiava.
Ela pedia para que eu esperasse, que tivesse calma e, enquanto isso, ia se ajeitando, se abrindo, deixando roçar o membro em sua portinha, ficando cada vez mais tesa.
Adentrei ou, melhor, em dado momento ela forçou-se contra o meu pênis e fui engolido pelo seu traseiro.
Primeiro um pouco, depois outro tanto e, escorregando lentamente, até a base.
Deixou-se assim por mais alguns segundos, até que tudo se acomodasse, para só então começar seus movimentos ritmados, enlouquecedores. No começo foi tudo lento. O vai e vem era vagaroso, no ritmo certo para arrancar dela gemidos estonteantes e provocar em mim um calafrio que me subia pela espinha. Um calafrio que desde minhas primeiras punhetas eu não mais havia sentido.
Mas ela não aguentou isso por muito tempo. Enquanto eu tentava adivinhar como podia aquele volume todo caber em seu traseirinho apertado, ela começou a se entregar ao prazer delirante e frenético. Seus gemidos viraram gritos e seu corpinho uma bola vibrante, descontrolada, fora de qualquer padrão de comportamento. Pedia mais, queria mais, afundava-se mais. Não pude me conter.
Todas as minhas lembranças fantasiosas sobre aquele ato liberou em mim uma energia que eu pensara nem sentir mais. Não sei como não rasguei o corpo de Paula, empurrando-me contra ela no sofá, contra suas entranhas. Enchi-a de esperma. Machuquei suas pequenas coxas, premendo-as com as minhas mãos, no momento do êxtase. Quase desmaiei. Mas não pude parar. Paula estava ainda em ritmo ascendente e pedia, gritava para eu ir mais e mais e mais. Mesmo sem forças, e sentindo que iria murchar logo, ainda arranquei dela um orgasmo que eu nunca vira. Juntou minhas mãos, uma em sua vulva, a outra em seus seios e rebolou, esfregou-se, gozou, desmaiou. Caiu sobre o sofá completamente abatida. Dois orgasmos em menos de vinte minutos. Eu tão morto quanto ela, ainda achava forças para admirá-la e também admirar a nós dois, naquela posição, meu membro flácido saindo bem devagarzinho de dentro dela. Deixei-o cair. Deixei-me cair no chão.
Almoçamos um lanche, horas depois daquele clímax.
– Por hoje está esgotado tudo. – disse ela, em certo momento.
– Que nada! – eu disse. – Mais tarde, quando estivermos mais descansados…
– Mais tarde que um bom banho de praia.
– Eu também. Mas depois, quando voltarmos…
– Seu tarado!
– Eu? Você sim é que parece insaciável. Quantas vezes mesmo você disse que já foi para a cama?
– Te interessa? – perguntou, sorrindo, saindo para o quarto, indo descansar na cama.
Vim escrever.
Na verdade, acho que me interessa sim saber das experiências dela. Sei que não devia, mas…
Mais tarde iremos à praia. Quero que ela vá tão provocante como foi hoje de manhã. Quero que o mundo inteiro sinta inveja de mim.
Quanto ao meu encantado conto, acho que vou dar uma mudada radical. Melhor mesmo é começar tudo outra vez e já colocar as coisas de modo a formarem uma história mais coerente, mais possível. Acho que essas coisas de acidentes, encontros casuais, pessoas que mal se conhecem e logo estão vivendo romances, aventuras.
Tudo isso fica bem em histórias de ficção. Mas eu não quero escrever ficção pura. Quero falar de coisas que acontecem no dia-a-dia. Uma história interessante sim, mas que tenha um que de normalidade. Tudo bem que a moça possa fugir de casa em um avião com defeito no motor, pousar na praia. Gente rica pode ter avião e campo de pouso particular. Ela poderia saber pilotar. Até aí tudo bem.
Mas estou achando um pouco estranho ela ir logo se apaixonando, tendo um caso com o escritor. Talvez se eu deixasse tudo como está e só aumentasse, mudasse o tempo em que ela conhece o escritor e depois de apaixona. Ela não deve se entregar logo de início. Isso não fica bem para uma mulher de princípios.
Vou recomeçar agora mesmo.
Domingo – 09:00 horas.
Paula foi até sua casa buscar algumas coisas para comermos, antes que estraguem por lá. Quando chegar, iremos à praia. Fomos, ontem de tardezinha. Estava um fim de dia maravilhoso, com o céu todo vermelho e quase sem vento algum. Podia-se ouvir ao longe e foi gostoso caminhar um tempão quase sem falarmos nada. Mas antes brincamos bastante na água, depois fomos tomar cerveja. E foi nesse momento que a conversa não me agradou muito.
Fiquei um tanto grilado. Primeiro porque surgiu a realidade de ser possível uma gravidez de Paula. Contou-me que só pretendia tomar pílulas já mais próximo do casamento e, como não usamos nenhum preservativo nesses dias.
Fiz as contas e, pelo que entendo de tabelinha, ela está exatamente em seu período fértil. Só me faltava essa! Melhor nem pensar. Eu, um quarentão, engravidando uma menina de vinte e poucos anos… Como fica minha situação?
Mas o que mais me encucou de fato foi ela dizer que não devo me preocupar com isso, pois se por acaso engravidar, não vai querer nada de mim, nem comigo e que vai, isto sim, é voltar para o noivo e se casar com ele na data marcada.
– Será uma extrema vingança, não será! – perguntou ela.
– Vingança? – perguntei. – Está falando sério?
– E por que não? Seria a melhor forma de devolver a ele o mal que ele fez para mim, pois o meu sofrimento pode passar logo, mas a traição que ele está sofrendo vai perdurar para sempre, na forma de um filho.
– Que ideia! Que mente demoníaca! – eu disse. – Nem eu que vivo inventando histórias seria capaz de pensar em algo assim.
– Pois está ai! – diz ela. – Por que você não aproveita isso como uma ideia para o conto?
– Isso não existe!
– Como não? E não é preciso nem escrever. Já está tudo escrito mesmo naquele seu caderno.
Conversamos ainda muito mais, mas não consigo, ou não quero, me lembrar direito do desenrolar da conversa. Lembro dela dizendo que está torcendo para que não venha a menstruação, para que fique grávida. E depois acrescentou que devemos fazer bastante amor nos próximos dias.
– Depois. – disse. – Quando chegar em casa, vou procurar meu noivo e transar com ele o mais rápido possível. Será até bom para a nossa reconciliação, não é mesmo?
– Eu…
Cortei, ou fui cortado em minha fala. Se bem que não sabia mesmo o que ia dizer. Estava atônito. Ela continuou.
– E quando eu anunciar a gravidez ele nem vai pensar em fazer as contas, não é verdade? Não vai desconfiar de nada, feito um bobão. Não é legal?
Eu estava para responder que aquilo tudo era uma monstruosidade, mas ela não me deixou. Continuou falando.
– Só espero que não nasça muito parecido contigo. Mas como sou loira, você também é, e ele é um pouco…
Então, segurou minha mão e falava agitada, esperançosa, como se tivesse acabado de descobrir e posto em prática todo o desfecho da sua vida. Disse então.
– Mas para isso eu preciso da sua ajuda, é claro! Primeiro vai ter de fazer o filho em mim, se é que já não fizemos. E depois vai ter de me ensinar como fazer ele acreditar que é a minha primeira vez. Como é que eu faço? Vamos lá… fale!
– Tente fazer igual fez comigo. – eu disse, já sentindo uma certa aversão por aquilo tudo.
– Como assim? – perguntou ela. – Com você foi minha primeira vez, de verdade.
– Sabe… burro como sou, estava até mesmo acreditando nisso.
– Mas é verdade. Quero dizer, já te contei que antes eu fazia com ele outras coisas, como aquilo que fizemos ontem, mas lá, nela… eu nunca… nunca mesmo.
– Está bem! – eu disse. – Também nem sei porque isso me importa. Eu sempre…
– Sempre o quê! Fale!
Não respondi. Achei muito desaforo confessar para ela que eu sempre imaginei, sonhei, fantasiei e até rezei para um dia viver uma aventura com uma mulher que não fosse Sara. Para mim, Sara sempre foi uma coisa da vida.
Explico:
Conhecemo-nos, namoramos e nos casamos, mas eu nunca a senti como uma conquista, uma coisa assim do tipo maravilhosa. É como se ela já fosse predestinada a ser minha e eu dela. Não foi a mulher que vi na rua e babei e lutei para conquistar.
A vida, com seus planos, faz-nos nascer, crescer, namorar, casar, ter filhos, e tudo o mais. E parece que Sara foi para mim a pessoa que a vida fez encaixar nos seus planos. E sempre sonhei com mulheres diferentes, outras, sei lá quantas, mas não importa que fosse uma só. Uma só, que um dia me aparecesse e despertasse em mim toda a fúria dos meus desejos, como eu nunca os vi despertar com Sara.
E essa mulher não poderia ser uma qualquer, dessas que se encontra por aí aos montes, dispostas a se deitar com qualquer um, em troca de interesses próprios, de prazeres baratos. Teria de ser uma mulher que fizesse comigo porque queria fazer comigo. Que me olhasse e dissesse; é esse aí! Esse é o homem e não resisto a me deitar com ele.
Essa mulher, a despeito de todos os seus compromissos com marido, filhos, iria ser minha simplesmente porque precisava ser.
Paula estava longe de ser esse encanto.
– Então você está deitando comigo apenas para se vingar do noivo? – perguntei. – Está me usando?
– De modo algum. – ela respondeu, tentando me convencer do contrário. E ainda perguntou: – Pelo amor de Deus! De onde você tirou essa ideia. Aliás – disse, estou tendo essa ideia agora e nem sei se estou falando isso a sério. É apenas um pensamento que está me ocorrendo. Nunca planejei nada disso. Para falar a verdade, essa ideia só surgiu mesmo quando me assustei com a possibilidade de uma gravidez. Acho que fiquei procurando saídas, sei lá. Mas tem uma coisa. – falou ainda. Se estou falando isso, é porque estou também pensando em uma forma de não te prejudicar em nada. Não quero criar problemas para você. Foi tudo muito bom e gostoso esses dias, mas não quero que fiquem como um problema, principalmente para você. E tem mais. – disse. – Tudo bem que me ocorreu uma vontadezinha de me vingar dele. Acho até que isso é normal. Mas se estou sendo sua é porque eu quis, de verdade. Senti vontade. Si lá! Até já me perguntei por que estou sendo assim tão fácil. Mas eu acho mesmo que é por eu estar aqui, sozinha, me sentindo um tanto livre. Entendeu? Sempre fui temerosa e recatada nessas coisas. Meu noivo custou a me convencer a irmos para um motel. Eu tinha medo. E só fui mesmo com a promessa de… de só fazer aquelas outras coisas.
Ela esmerou-se em achar desculpas e provar para mim o contrário do que eu pensava, e penso. Mas não me convenceu muito. Estava em jogo a validade dessa minha grande aventura. E então ela acabou de prostrar-me em terra.
– Você vai me ensinar a me fingir de virgem?
Mesmo contra vontade, e já com o pensamento em outras coisas, comecei a dar algumas dicas. Eram ideias que eu mesmo inventara ou então tirara de revistas e livros, pornográficos ou não (afinal um escritor tem de ler de tudo).
Mas, em resumo, passei a ela a ideia de que se ela pegasse o noivo de surpresa, sem que ele tivesse a menor ideia de fazer sexo com ela naquele momento, de preferência um pouco alterado pela bebida.
Se ela fizesse isso acontecer em uma posição bastante desconfortável e imprópria para a penetração, como, por exemplo, os dois em pé, de frente um para o outro.
Evidentemente, também não iriam tirar a roupa por completo.
Somado a tudo, se ela antes treinasse bastante a contração vaginal para que na hora se mostrasse a mais fechada das moças, se não abrisse muito as pernas, se se masturbasse umas duas ou três vezes, momentos antes, para não sentir muito tesão, para que permanecesse seca.
E se aliasse tudo isso a uma dramatização ensaiada, com gritos e pedidos para parar e, mais ainda, se fosse acrescentado também o fato de ele não ter muita experiência, então ela teria uma grande chance de enganá-lo, ou então, o que vem a dar na mesma, deixá-lo em dúvida. Mas até aí…
– Meu Deus! O que estou fazendo? – pensei. – Mas ela cortou meu pensamento, dizendo:
– Experiência ele tem. Descabaçou a prima.
– Será que foi ele mesmo? – perguntei.
– Quando chegarmos em casa, você me ensina esse negócio de contração vaginal, me mostra a posição mais inadequada, me ensina a gritar direito?
Dali para frente, não me lembro mais o que conversamos, o que eu disse, o que eu respondi. Sei que voltamos para casa e brincamos na cama. Fizemos sexo. Ela insistia ainda em aprender como fingir-se de virgem, mas eu não estava a fim de mais nada. Respondi que ensinaria amanhã (que é hoje).
Agora fico pensando quem sou eu para querer ensinar tudo isso a alguém? Eu disse a ela que seria mais fácil enganá-lo se ele não tivesse muita experiência nisso. Mas que experiência tenho eu?
Além de tudo, bateu-me também uma dúvida aterradora e estou me lembrando agora de como foi a minha primeira vez com Sara.
Não foi numa posição conveniente, nem foi planejado.
Foi num dia, às vésperas do casamento, na varanda da sua casa. Ela estava muito excitada, me beijando e abraçando como não costumava fazer. Sempre disse que era uma moça recatada e que não conseguia externar seus desejos adequadamente.
Mas, naquele dia, estava fazendo tudo o oposto. Lembro que havíamos tomado bastante vinho, junto com seus pais. Foi ela quem comprou o vinho. Então, ali, na varanda, em pé, com uma saia justa, mal levantada, sem poder tirar a calcinha, eu com as calças nos joelhos.
– Sara! É perigoso. – eu disse.
– Eu sei, eu sei – ela dizia. – Mas não aguento mais. E a gente vai se casar mesmo.
Foi ela quem levantou uma das pernas, ainda enroscada na calcinha, e ajeitou meu pênis em sua vagina. Não foi uma penetração profunda. Nem havia como.
Fico aqui, agora, pensando se realmente casei-me com uma mulher virgem, como ela jurava ser, como era costume naquela época. Não que isso fosse primordial, indispensável. Só não acho justo é que se minta para manter um estado que não se tem mais.
Será que a Sara e o Jorge…?
Fico doido só de pensar nisso.
Como gostaria de voltar no tempo, na memória, lembrar todos aqueles dias, frase por frase que foram ditas, coisas que presenciei.
Talvez, vendo tudo aquilo agora, com outros olhos, com os olhos da consciência agora adquirida, talvez eu conseguisse ver além do que eu via na época e então pudesse saber da verdade toda.
Paula está brigando com o portão, insistindo para que ele fique de pé. Desista, vou gritar para ela. Vamos à praia, voltemos da praia, quero de novo estar com você, no sofá, com seu vestido sobre os ombros, suas nádegas expostas, oferecidas.
Sara que se dane! Meu conto que se dane! Quero me divertir.
Quero novamente aquele traseirinho.
Domingo ainda – 16:00 horas.
Das 14 horas até agora eu estava escrevendo, ou melhor, reescrevendo o conto. Deixei a parte do avião, do pouso forçado, do abrigo na casa do escritor. Só que agora o escritor está dando de cima dela, mas ela acha tudo muito prematuro. Não quer se envolver numa aventura apenas. Quer algo mais concreto, com maior compromisso. Em suma, ela não quer se parecer fácil, ou não é fácil.
Mulher de bandido com essas ideias?
Bosta! Por que diabos tenho de ficar achando obstáculos para mim mesmo? Por que devo achar que mulher de bandido não tem pudor? Vai ver que ela não sabia que ele era bandido, quando se casaram. Ou então ele se transformou em bandido depois. Mas nem bandido ele era. Quando muito era um traficante… Traficante que não é bandido?
Não dá mesmo! O jeito é deixar para depois. Vou achar uma solução. Depois vou escrever a primeira porcaria que me vier na cabeça e será isso o que entregarei para o Clóvis. Quero nem saber se tem fundamento ou não. Se for agradável para se ler ou não, se o leitor vai gostar ou não.
Quem quiser uma história do seu gosto, que escreva!
A Paula chegou num delicioso vestido branco, tentou arrumar o portão, tentei junto com ela, não conseguimos, fomos para a praia, arrancando olhares dos mais sérios coroas das redondezas.
Na areia, despiu-se, revelando seu biquíni também branco. Brincamos na água, tomamos caipirinha, cerveja, voltamos para casa, e fizemos como ontem. Só que hoje foi na cama, deitados, na posição que ela já estava acostumada, de bumbum para cima e eu sobre ela.
Loucuras!
Depois eu a fiz ficar sobre o meu corpo, agachada, de cócoras, provocando uma penetração tão profunda que senti minha lança tocando algo dentro dela. Seu anus pulsava. Ela ficou fora de si, descontrolou-se toda e teve seu merecido orgasmo. Depois voltamos para a posição anterior, na minha vez de gozar.
Mas, em seguida, veio novamente com aquele papo de aprender a simular virgindade para o noivo. Mesmo quando a questionei sobre não ter a certeza de estar grávida, ela revelou que isso já não importava, que iria voltar para o noivo de qualquer maneira. Já se considerava plenamente vingada, em pé de igualdade. Fiquei calado, olhando para ela, tentando entendê-la, tentando entender-me.
– Me ensina com se faz! Ensina! – pediu.
– Você pode simplesmente dizer que estava acostumada a enfiar o dedo, que se masturbava com algum objeto.
– Não! – ela disse. – Quero que ele pense que estou intacta, completamente intacta.
Estar intacta? Tão intacta quanto Sara estava quando fizemos pela primeira vez?
Sou capaz de jurar que se a Sara e o Jorge tivessem trocado um único beijo, ela não teria me contado isso. E se contou, então é porque aconteceu muita coisa mais. Agora que estou observando o comportamento de Paula, consigo enxergar melhor o que Sara deve ter feito comigo.
Imagino que daqui a alguns anos, quando Paula já estiver casada, com esse seu mesmo noivo, criando um filho que não é dele e… num certo momento de maior descontração, numa conversa mais solta, sobre efeito de alguma bebida…
– Você já me traiu alguma vez? – vai perguntar o marido.
– Nunca! – vai responder a Sara.
– Nunca mesmo? – ele vai insistir.
– Bom… – vai dizer ela, pensativa, medindo as palavras. – Teve uma vez, uma vez só.
– Ah é? – pergunta ele, já sentindo um certo gelo a percorrer seu corpo. Mas insiste: – Conte como foi. Pode falar! Já passou mesmo. Como foi, com quem, onde?
– Foi nada sério, não. – vai dizer a Paula, candidamente. – Foi uma vez que estávamos brigados. Lembra de você e sua prima? Então eu fui passar uns dias na praia. E numa tarde eu conheci um carinha na areia. Um sujeito feio, com cara de tonto. Mas eu estava tão deprimida, precisando conversar. Ele me convidou para tomar caipirinha. Contei a ele o que estava acontecendo comigo. Então ficamos andando, e quando nos despedimos, trocamos um beijo… na boca.
– E o que mais?
– Mais nada. Só isso. Nunca mais nos vimos.
Com certeza, será esta a história que Paula contará ao marido. Tudo o que estamos vivendo aqui nesses dias, se resumirá num beijo, num simples beijinho despretensioso.
Será que Sara…?
Não quero crer nisso.
Como eu gostaria de estar com ela agora! Encostá-la na parede, fazê-la contar toda a verdade, sem esconder mais nada, por pior que fosse essa verdade. Poderia até me machucar, mas pelo menos eu saberia de tudo e não ficaria nessa dúvida que tanto me tortura. Estou até pensando em voltar hoje mesmo para casa. Não aguento mais esperar para saber a verdade.
Aquele nosso filho… Nosso filho?
Paula acordou e foi lá fora tomar sol, só de calcinha. Quero só ver se surgir alguém pelos muros! Deve ser mesmo uma cadela essa menina! E eu, acreditando que tinha feito a conquista da minha vida. Que tinha realizado minha grande fantasia. A grande aventura de um homem… com uma piranhazinha.
Acho que nem haverá mais prazer em transar com ela. Tornou-se mais uma Sara, sem gosto.
Agora diz que vai mesmo voltar para o noivo, estando ou não grávida. Que cabeça a dela! Que sina a do rapaz! E ainda sugere que eu coloque isso no meu conto.
E se a moça resolvesse transar bastante com o escritor. – diz ela -, só para se vingar do marido e depois voltasse para ele como a mais inocente das mulheres?
Acho que nenhum leitor inteligente vaia achar uma história assim digna de ser lida.
Vou lá fora também. Não consigo escrever mais nada mesmo.
21:00 horas.
Estou no ônibus, voltando para casa.
Impossível ficar lá na praia, enquanto não tirar essas dúvidas da minha cabeça.
Quero a verdade toda.
Sara vai ter que me contar!
Quero que me relate, nos mínimos detalhes, tudo o que aconteceu entre ela e aquele comedor barato.
Se é que foi mesmo só com ele.
Ou fico sabendo tudo ou acaba o casamento. Aliás, já está acabado mesmo. Se não fosse o banana que sou, já teria metido o pé na bunda dela há muito tempo. Nem filho teríamos tido.
– Por que ir embora assim de repente? – perguntou-me a Paula. – Podemos aproveitar mais uns três ou quatro dias ainda.
– Você pode continuar aproveitando. Não será difícil me substituir.
– Mas você nem terminou seu conto ainda.
– Nem vou terminar. Não preciso mais.
– Eu posso te ajudar. Eu dou ideias.
– Já disse que não vou escrever mais nada. Já não faz mais sentido.
Como última tentativa, ela caminhou para mim, levantando sua camiseta e expondo sua calcinha mais o par de seios durinhos… mas sem brilho.
– Mas e as coisas que você prometeu me ensinar, a contração…?
– Você será bem capaz de aprender por aí. E nem precisa. Basta fazer como fez comigo e qualquer outro trouxa vai acreditar.
– Eu fiz com você?
– Sou bobo, mas não sou burro. Pensa que não sei do seu fingimento esse tempo todo? Você tem mais hora de cama que urubu de voo. Mas não era necessário todo esse fingimento, mocinha. Bastava ser sincera e pronto. Iríamos aproveitar melhor a situação.
Meio soluçando, apanhou as coisas que eram dela e saiu, rumo à sua casa, do jeito que estava vestida. Ainda na porta, parou e fez sinal de voltar. Por fim, se foi e eu agradeci.
Arrumei minhas coisas, tranquei a casa, escorei com um pau o idiota do portão e fui tomar o ônibus, que agora está me levando de volta para a verdade.
Fui para lá pensando em achar uma ideia maravilhosa para escrever um conto um tanto erótico, diferente, uma história inusitada, e acabei voltando como estava ou, na verdade, muito pior ainda.
Estou pior sim, porque agora, de repente, me bate uma ideia de que Sara pode não falar nada. Pode continuar insistindo naquilo que já sei.
Afinal, não é a primeira vez que tento arrancar a verdade dela, sem conseguir.
P.S.
Segunda-feira – 09:00 horas
Acabei chegando muito tarde ontem, pois o ônibus quebrou na estrada. Quando cheguei encontrei a sara e o menino dormindo. Por isso deixei para hoje a conversa com ela.
Mas acabei acordando tarde também, não faz nem quinze minutos.
E acordei com a voz de Sara falando ao telefone com o Clóvis.
– Escreveu sim! – dizia ela. – Já li todinho duas vezes e quero ler novamente. E olha que não é por ser do meu marido não, ficou maravilhoso. É a história de um sujeito um tanto machista que tem dúvidas sobre a fidelidade da esposa. Aí ele vai para a praia em busca de sossego para escrever um conto, conhece uma menina, vivem uma grande aventura, mas ele nem se dá conta disso, ocupado que estava em pensar na possível traição da própria mulher. Você vai gostar também, pode acreditar! Acho que ele se superou dessa vez.
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Anna Riglane… Jornalista, historiadora, pesquisadora do comportamento sexual humano, coletora/escritora e divulgadora de Contos Eróticos transcritos a partir de relatos dos seus leitores e/ou com base em fatos do cotidiano
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