Por algumas horas de liberdade… relatos de uma presidiária

Mais de oito meses sem ver o sol, sem andar pelas ruas, tomar um sorvete no shopping.

Morria por dentro e me perguntava onde tinha ido parar aquele meu mundo maravilhoso de antes, quando nada me faltava.

Daquela menina rica e com tudo à mão, acostumada a dar ordens, a exigir tudo na hora e na medida certa, nada mais restava a não ser as quatro paredes e uma legião de mulheres na mesma situação que eu, algumas ali há mais de vinte anos.

E pensar que vinte anos também me aguardavam, e me aguardam.

Vinte anos privada de tudo e de todos, da família, do namorado, meu primeiro e único, do sorriso da empregada, do aceno do varredor de rua, da faculdade.

Vinte anos privada do meu namorado, que ainda me jurava amor, que me visitava todos os finais de semana, que prometia esperar minha saída.

Eu dizia a ele que arrumasse outra, que me esquecesse, que não estragasse a sua vida como eu havia estragado a minha.

Eu tinha razão para estar presa, eu tinha cometido um crime, mas ele não.

Ele tinha a liberdade, era inocente de tudo e merecia viver a vida.

Mas ele não vivia ou, se vivia, não demonstrava isso, pois estava sempre junto a mim, ainda que separados por muros, grades, regras e disciplinas.

A gente pensava na visita íntima, no direito que eu tinha de me isolar com o meu namorado e fazer amor, fazer sexo.

Mas o máximo que conseguíamos fazer era amor, porque sexo, nem eu nem ele tinha coragem de fazer, não ali, entre tantas outras presidiárias, entre tantos guardas, entre tantos outros visitantes.

Mas no silêncio da noite eu pensava nele, me masturbava em silêncio, imaginando mil cenários de amor, mil lugares ou, então, simplesmente a minha caminha, o meu quarto, que há tanto tempo eu não via.

Eu já não queria que meu namorado fosse fiel a mim, sem poder fazer sexo comigo.

Eu queria, eu pedia, que ele arranjasse alguém.

Mas ele sempre dizia que o único amor da vida dele era eu, e que esperaria pelo dia, pelo momento.

– Eu espero o dia… fora daqui. – ele dizia.

– Nesse dia, vou estar com mais de quarenta anos. – eu falava.

– Não importa. Eu espero. – ele me jurava

Então, numa certa tarde do mês de dezembro, já bem próximo do natal, um fato novo abalou a minha vida, colocando as minhas convicções em xeque.

A diretora chegou em minha cela e foi direto ao assunto: perguntou se eu gostaria de dar umas voltas pela cidade à noite.

Rasguei o maior sorriso.

Meu coração quase pulou para fora, de tanta alegria a explodir num átimo de tempo.

De repente ali estava a minha chance de voltar a ver o meu mundo perdido, ainda que fosse por algumas horas, às escondidas e sem poder falar com ninguém.

Respondi imediatamente que sim, e perguntei o quanto eu teria de pagar. Mandaria o meu advogado trazer o dinheiro.

– Ainda continua querendo resolver todas as suas coisas na base do dinheiro, menina? – disse a mulher, de forma sisuda, esfriando minha euforia. Depois continuou: – Tem uma pessoa interessada em você. Vocês podem sair à noite…

– Interessada em mim? Mas interessada como? No dinheiro, no…

(…)


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